As invenções do falasser
Sandra Landim
(Participante da EBP Seção RJ)
Uma verdade da experiência, para a análise, é que a questão de sua existência coloca-se para o sujeito, não sob a feição da angústia que ela suscita no nível do eu, […] mas como uma pergunta articulada: ‘Que sou eu nisso?’[…] Que a questão de sua existência inunde o sujeito, suporte-o, invada-o ou até o dilacere por completo, é o que testemunham ao analista as tensões, as suspensões e as fantasias com que ele se depara; mas resta ainda dizer […] que essa questão no Outro se articula. Pois é por esses fenômenos se ordenarem nas figuras desse discurso que eles têm fixidez de sintomas, que são legíveis e se resolvem ao serem decifrados[1].
Nesse texto vamos articular a afirmação dos Escritos de Lacan citada acima com o Seminário Clínico da EBP-Seção Rio – Ressonâncias e gambiarras: A clínica do Sinthoma[2].
No texto de Lacan, o sintoma comparece como efeito da pergunta do sujeito no campo do Outro — Que sou eu nisso? — e, portanto, como formação significante passível de deciframento. No Seminário Clínico estamos trabalhando a noção de gambiarras — invenções do sujeito, onde algo é deslocado. O que está em jogo já não é primordialmente a verdade recalcada que o sintoma velaria, mas o real de gozo que nele insiste e que resiste à interpretação. Poderíamos pensar como gambiarra o arranjo que faz um autista com o uso de fones de ouvido para barrar o barulho externo?
Desse ponto de vista o falasser encontraria no sintoma não apenas aquilo do que sofre, mas também aquilo com que se sustenta. A questão sobre o ser permanece, mas seu estatuto se modifica. O sintoma já não se reduz ao que demanda interpretação; torna-se aquilo pelo qual o falasser realiza uma amarração entre corpo, linguagem e gozo. O sinthoma não responde mais à pergunta pelo sentido, mas opera como invenção singular diante do real.
Quanto à noção de gambiarra, ela pode ser aproximada do savoir-y-faire com o sinthoma. Ela não suprime o impossível, mas constitui uma solução localizada, precária e eficaz, uma borda que permite ao sujeito fazer laço e sustentar uma forma de existência. Em seu último ensino, Lacan vai além da tese da Questão preliminar: se o sintoma era, inicialmente, o lugar onde se escrevia a pergunta do sujeito sobre seu ser, ele passa — agora — a designar também a resposta singular que cada um inventa para sustentar sua existência diante do real.
