Uma volta a mais antes da dissolução
Cassandra Dias Farias (EBP/ AMP)
A experiência psicanalítica descobriu no homem o imperativo do verbo e a lei que o formou à sua imagem. Ela maneja a função poética da linguagem para dar ao desejo dele sua mediação simbólica. Que ela os faça compreender, enfim, que é no dom da fala que reside toda a realidade de seus efeitos; pois foi através desse dom que toda realidade chegou ao homem, e é por seu ato contínuo que ele a mantém[1].
O Relatório de Roma, publicado em os Escritos marca a ruptura de Lacan com a Sociedade Psicanalítica de Paris[2]. Sua ideia central é a de que o sujeito é efeito da linguagem.
A função poética da linguagem é matéria prima da experiência analítica, por onde a dimensão do desejo encontra sua mediação simbólica. A noção de realidade como efeito da linguagem estabelece o campo fecundo em que a psicanálise passa a operar a partir da subversão de Lacan ao que se constituiu como um desvio à descoberta freudiana. Esse texto, portanto, é emblemático para formalizar a relação entre linguagem e inconsciente – e foi o ponto de partida de uma experiência de cartel iniciada em 2024, nomeado Línguas, linguagem e letra.
No momento de sua dissolução, o cartel fez uma volta a mais em sua elaboração a partir de uma atividade da Seção Nordeste, da Escola Brasileira de Psicanálise, que deu voz aos cartelizantes tomando como base de leitura outro texto de Lacan, Lituraterra.
Juntamente com Função e campo, esse texto permitiu um sobrevoo em relação ao tema da linguagem. Encontro com um Lacan “sempre atual, ou definitivamente intempestivo?”[3]. Momentos distintos que evidenciam cortes e prolongamentos, não necessariamente rupturas. Do banho do significante ao choque de lalíngua no corpo, um arco tensionado. Um primeiro e um segundo Lacan, entrecruzados um no outro.
Desse momento, pontos candentes foram tocados pelo trabalho com o dispositivo do cartel em ação. Cada cartelizante pode falar sobre sua questão, o ponto em que chegou com ela e como, a partir de agora, irá deixá-la. A partir da “arqueologia do cartel”, expressão cunhada por um dos cartelizantes, pudemos falar sobre o desejo de cartelização existente, que possibilitou a pesquisa acerca de uma questão que tocasse a relação com o desejo de saber sobre essa relação entre linguagem, línguas e letra. O que teria funcionado como “grude” para colar 4 + 1 é o mesmo desejo que agora, precisa descolar, a partir da advertência de que há furo no saber.
