A política do tratamento no primeiro e no último ensino de Lacan
Cláudio Melo (EBP/AMP)
Na atividade preparatória para a 30a Jornadas da Seção Bahia, sob o tema: O Inconsciente e a transferência, hoje, foram apresentados dois casos clínicos, um de psicose e outro de neurose, que tiveram em comum o tema dos efeitos terapêuticos operados pela escuta do analista.
No primeiro caso, apresentado por Ethel Poll, o que poderia aparecer aos olhos da medicina como um sintoma de personalidade, a ser controlado, é interpretado pela analista como uma estratégia de defesa diante da ameaça de invasão do Outro, que surgia na forma de sintomas paranoicos. Já no segundo caso, trazido por Célia Sales, tratou-se de um sujeito neurótico em que o fim de uma condição de vida passa a ameaçar uma estrutura de gozo que o protegia do real da morte. Apesar das diferenças estruturais, podemos localizar aproximações. Em ambos os casos, os sujeitos precisam inventar algo para se defender do real do gozo; a escuta analítica teve efeito no discurso: na neurose, efeito interpretativo; na psicose, efeito de estabilização.
O que vemos é uma política do tratamento que privilegia as invenções de cada sujeito, na forma de suplências que sirvam como defesa contra o gozo invasivo. No texto a Política da suplência, citado por Célia, Carlo Viganó chama de “nova política” de Lacan aquela orientada pelo sinthoma, privilegiando a suplência como invenção singular diante do real do gozo[1]. Pois então, em que essa política do sinthoma presente no último ensino de Lacan, se aproxima do que ele chamou de política do tratamento, em 1958, em seu artigo A direção do tratamento e os princípios de seu poder? Nesse artigo, Lacan diz que o analista tem como tática a interpretação, a transferência é a estratégia e a política se orienta na falta-a-ser da posição do analista[2].
Proponho que, apesar de serem políticas distintas, há uma continuidade ética na posição do analista, apesar da mudança no que orienta o tratamento. Em 1958, a falta-a-ser impede que o analista imponha ao sujeito uma solução a partir de seu próprio ser; no último Lacan, essa mesma renúncia permite acolher e favorecer a solução singular que o sujeito inventa para tratar o real do gozo. Assim, a política da suplência radicaliza essa direção: não cabe ao analista oferecer uma solução, mas sustentar as condições para que o sujeito encontre uma maneira singular de fazer com aquilo que, do real, lhe concerne.
