Um sussurro que abafou o barulho
Mauro Agosti
O que acontece quando, no meio do barulho festivo, um sussurro causa e interroga? Na abertura das atividades da EBP Seção Sul 2026, Leonardo Scofield resgatou o instante em que acolheu uma provocação de Louise Lhullier: “E se trabalharmos o objeto voz?”. Esse sussurro inaugurou uma convocação: o que nos interroga do objeto voz entre o sintoma e a interpretação? O que organiza o sofrimento não é apenas o enunciado, mas o modo como o sujeito se enreda no gozo que se articula à voz. Assim, formalizou-se o “enredo” da pesquisa deste ano, inserido também no Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
Para orientar a trama, três eixos foram propostos: o estatuto da voz no sintoma e na fantasia; a função transferencial e interpretativa da voz; e a interpretação como corte e escrita, para além do sentido.
Do shofar ao surdo: puxando os fios do enredo
Louise Lhullier evocou o Seminário10, de Lacan, para localizar a voz como objeto através do shofar. No instrumento de sopro judaico, não importa o ruído, mas o resto que cai: a lembrança ligada ao som original. Lhullier propôs avançar pela esquize voz/ouvido — uma antinomia análoga àquela entre o olho e o olhar. No testemunho de Irene Kuperwajs, vemos essa transição: de uma fixação precoce no “gozo do silêncio” à voz do analista que, ora silenciosa, ora “de trovão”, opera com uma mudança de estatuto.
O silêncio do analista é o ponto de virada: ele convoca o objeto como falta ou como excesso de gozo? Heloisa Caldas nos lembra que o fazer analítico deve romper o mito da compreensão e evitar o “gozo da falação”. A interpretação não acrescenta sentido; ela corta, fazendo emergir a voz como resto, até então eclipsada pela significação. Louise nos desafia: como verificar essa emergência no caso a caso? Que efeitos indicam que houve corte e não produção suplementar de sentido?
A memória libidinal e o fluxo fônico
Luís Felipe Monteiro trouxe o surdo de Carnaval para o enredo — um instrumento brasileiríssimo, que faz barulho, mas carrega a surdez no nome. Para ele, a voz guarda algo de surdo: “uma memória libidinal, traços de erotismo ou horror” apontando para a memória como marca de gozo. Um outro fio que puxou foi que a voz apela ao sentido para preencher o vazio enigmático, constituindo um Outro.
Contudo, na origem, a voz é apenas fluxo fônico. A forma como esse fluxo é recortado reflete na “decisão insondável do ser sobre seu modo de gozar”. Se a fala falha diante do gozo, cabe ao analista falar a partir do silêncio da pulsão, preservando o lugar do impossível de dizer.
A gramática do vazio
O fio final tocou a vizinhança entre o objeto voz e o oral. A laringe, como descreve Caldas, funciona como uma “seringa que porta o sopro para ser seccionado. Esse recorte comporta um vazio a ser seccionado”. Resta-nos seguir a trama: a gramática da voz é a mesma do objeto oral? Há vizinhanças no passe da Irene mas, será que em outros casos se verifica, ou são completamente dispares? A pesquisa da Seção Sul começa agora, sob a égide desse sussurro que, ao interrogar o barulho, faz ressoar o real.
