Ana Beatriz Zimmermann
Diego Cervelin
A edição de número 35 da Correio Express já está disponível! Nela, vocês encontrarão textos que giram em torno da problemática do Outro que não existe. Trata-se menos da descrição de um estado de coisas e muito mais da tentativa de localizar pontos de detenção ou de torção, bem como algumas bússolas que possam nos auxiliar na leitura e na abordagem de eventos tão complexos. Essa perspectiva será percebida nos percursos apresentados nas seções Zeitgeist e Zona Êxtima, assim como nos Sobrevoos, os quais procuraram recolher pontos candentes do trabalho elaborado pelas sete Seções da Escola Brasileira de Psicanálise neste primeiro semestre de 2026.
Os Sobrevoos desta edição trazem pontuações que recolhem de diferentes modos e estilos uma preocupação tanto com a clínica na contemporaneidade quanto com a própria vida do significante “psicanálise” na cultura. Os textos, assim, comportam considerações sobre as relações entre sonho e ato, sobre o analista como encarnação do objeto a, sobre a língua como experiência de gozo em tempos de inteligência artificial, sobre o laço em movimento que perpassa sintoma e Escola, sobre o que convém ao que não existe, sobre o ato de ler como escrita e, finalmente, sobre o objeto voz entre sons e silêncios que permitem considerar uma gramática do vazio.
A proposta deste número da Correio Express também ganhou corpo através de um questionamento de base: como se analisa no tempo do Outro que não existe? Ou seja, faz-se alusão ao momento em que os semblantes se fragilizam, desvelando um excesso ou mesmo uma infinitização mais fundamental do gozo. Considerando as soluções sintomáticas que os falantes – bem ou mal – elaboram a fim de se defender do real, assinala-se a importância de os psicanalistas se manterem atentos às retificações e aos rearranjos tanto em sua prática quanto em suas ferramentas de leitura conceitual. Tal qual ensinou Jacques-Alain Miller, entramos em uma nova era do inconsciente. É a passagem da época do inconsciente como semântica à época do inconsciente como real, em que a psicanálise opera sobre o sintoma como condensação de gozo que não necessariamente implica um sujeito, mas, antes, um falasser. O inconsciente, manifestando-se não mais de forma residual, aparece como impossível de suportar, em que o vazio não é facilmente localizável.
Para trabalhar esses aspectos e recolocá-los com outros contornos, trazendo pontos de luz ou mesmo de obscuridades outras, na seção Zeitgeist deste número 35, contamos com as contribuições de Oscar Reymundo, de Cristiane Grillo e de Ary Farias.
Oscar parte de um fecundo diálogo com Bifo Berardi para tecer um convite que transforma inquietações em sementes capazes de reconfigurar princípios orientadores até mesmo no fazer analítico, tanto no consultório quanto fora dele. Nisso, o autor dá destaque, por um lado, ao “divórcio entre capitalismo e democracia”, na medida em que dá impulso ao avanço do real sem lei; e, por outro, à relevância de os psicanalistas testemunharem algo de suas próprias posições.
Cristiane, por sua vez, retoma um importante encontro com o real na existência de cada falante: a puberdade. Ela destaca o risco envolvido na construção “de um furo pelo qual pode ser possível passar”. Trata-se de conferir dignidade aos restos e, ao mesmo tempo, de fazer frente ao excesso como um dos nomes do real, apostando no encontro entre analista e analisante. Ou seja, um encontro que possa constituir borda justamente em relação àquilo que persiste enquanto estranheza e insensatez.
Ary, com seu texto, nos permite dar mais um giro ao se dirigir ao amor como uma aposta renovada na surpresa. Isto é, a surpresa que é possível extrair de uma experiência na e com as palavras ao longo de uma análise – ou seja, quando um falante se dispõe a dar tempo e ouvidos para as próprias embrulhadas na conjunção do desejo e do objeto inadequado. Com isso, o autor também destaca que, no amor, constitui-se uma possibilidade de fazer “borda ao impossível, ao agramatical do gozo que reina na solidão do corpo do Um”.
Na seção Zona Êxtima, contamos com as elaborações de Ondina Machado (AE em exercício) em torno de alguns questionamentos propostos pela equipe da Correio Express. Com seu estilo, Ondina nos permite recolher algo dos efeitos que podem emergir através da desconstituição do Outro todo, sabichão, dando margem para uma elaboração mais singular, que toma como base os modos de encontro e abordagem do Um no decorrer de um percurso de análise. Nesta entrevista, Ondina também apresenta comentários em torno da função e operatividade da transferência, bem como do ato analítico.
A Diretoria de Cartéis preparou essa Dobradiça com textos de alguns integrantes dos cartéis que foram propostos para sustentar o processo da Nova Política da Juventude (2023-2025) na EBP.
As imagens que ilustram este número da Correio Express, assim como nas duas últimas edições, também fazem parte da série intitulada “garafunhas”, elaborada por Artur de Vargas Giorgi – a quem agradecemos.
