Três letras ou uma política do novo
Heloísa Bedê
“Bonita forma de receber as pessoas!”[1], eis a porta do cartel, aquela cujo “único meio para que se entreabra é chamar do interior”[2]. Uma porta de entrada no que introduz, a cada vez, a lógica da Escola no bojo desse pequeno grupo e que, no contexto da NPJ na EBP, operou como uma invenção que fez ressoar, no íntimo da experiência, a radicalidade da implicação do analítico no institucional.
Ali, ainda que os encontros do cartel fossem atravessados pela dificuldade em suas marcações, a causa circulava, enlaçando o político, o clínico e o epistêmico da questão sobre a formação do analista. Do que esburacava o grupo, extraiu-se a presença de uma função: o mais-um. Um cartel que desmonta a lógica imaginada da tutoria, sublinhando a função da Escola como êxtimo. Inscrito na rubrica política, ele não poderia senão estar submetido às aberturas e fechamentos, entradas e saídas, ao novo e ao velho que seus cartelizantes propuseram-se a discutir.
Sua operatividade, portanto, deu-se justamente por escapar à previsibilidade esperada, estrutura que resvala na lógica mesma do que pude testemunhar com a NPJ. Afinal, para que um dispositivo de Escola se pretenda instrumento do despertar de seus participantes, é preciso que ele, ao interpretar sua soma de solidões, opere também como um convite a que cada um assuma aí algum risco, que se desenhe algum índice do próprio despertar[3].
Um cartel que explicitou a responsabilidade de extrair do impasse o vivo da experiência; movimento que retorna sobre a forma de ler a Escola, na aposta de que ela “deve preservar sua inconsistência como seu bem mais precioso”[4]. Esse ponto, embora já conhecido, passa a compor, no corpo, o esboço de um novo modo de operar com a Escola e de ser tocada por seu turbilhão. Do trabalho em cartel, seus avanços e crises fizeram decantar NPJ como letras com as quais pode-se tecer o próprio uso. “Um jeito de ir”, escreve um sonho. Um saber que não se dá sem alguns outros do cartel, sobre uma política do novo, aquela que articula o íntimo do ponto de causa à causa freudiana.
