Tecendo a manhã na Seção Nordeste
Júlio Garcia Freire
Ainda ressoam em nossos corpos os efeitos da última Jornada da nossa querida Seção Nordeste e é com muito gosto que damos a essas ressonâncias um destino com as preparações para mais um ano de trabalho. Alimentados pela chama de um desejo de trabalho parecido com aquele que animou Freud quando escrevia até tarde da noite e o faz sonhar com o que abre A Interpretação dos sonhos: o sonho de Irma[1].
No esforço de desvendar tal sonho, Freud trabalha arduamente em torno do que ele não quer saber, delimitando a diferença entre saber e verdade. Como aponta Santiago[2], ao retomar a articulação de Lacan no Seminário 17[3], a verdade surge como enigma e sentido obscuro do gozo que desafia o saber, mantendo a engrenagem simbólica funcionando a partir de sua própria impossibilidade. Diante disso, cabe a questão: ainda há lugar para o enigma em nossos tempos?
Caminhamos para uma sociedade da transparência, onde o saber é capturado por dispositivos tecnológicos e inteligências artificiais que pretendem esgotar o que se pode dizer sobre o sujeito. Tais ferramentas encarnam a fantasia descrita no Fedro, de Platão[4]: o mito do Deus Thoth, que ofereceria ao faraó a promessa de uma sabedoria total, tornando desnecessário o movimento de buscar o conhecimento.
É por sentirmos os efeitos dessa época que abrimos as atividades da nossa Seção com a discussão sobre o uso dos algoritmos e a língua particular. Pois estamos advertidos por uma experiência que nos ensina que a língua não é uma experiência estatística, mas de gozo, irredutível ao sentido e incapturável por um saber. A fim de sabermos mais disso convidamos toda(o) aquela(o) interessada nessa experiência para acompanhar nossas atividades neste ano e contribuir com nossa tessitura, com particular apreço pela nossa Jornada, que terá como tema Delírio e Interpretação. Como nossa colega Margarida Assad pôde dizer no lançamento: “a Jornada é um saber acumulado por muitos anos, mas, a cada vez, algo de novo se introduz”.
