Sintoma e Escola: o laço em movimento
Francisca Menta
A primeira atividade aberta ao público da EBP-Rio de 2026 foi o Seminário de Orientação Lacaniana, em 16 de março, Sintoma e Escola: uma lógica de amarração. O Seminário é organizado sob responsabilidade do Conselho da Seção Rio que, neste ano, convidou Andréa Reis dos Santos como coordenadora e Romildo do Rêgo Barros como debatedor permanente.
O Conselho e a Diretoria da Seção Rio propuseram, para este ano, um eixo comum de pesquisa que orientasse o trabalho institucional — Seminário Clínico, Seminário de Política da Psicanálise, Seminário de Orientação Lacaniana, Jornadas Clínicas, revista Latusa e outras atividades — visando às 33ª Jornadas Clínicas da Seção Rio O corpo sutil do sintoma – Laços e gambiarras e ao 26º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita. O sintoma, tema escolhido para os estudos deste ano, é o terceiro de uma sequência de pesquisas em torno dos conceitos fundamentais trabalhados nas Jornadas Clínicas anteriores, que tiveram interpretação e transferência como temas nos anos de 2024 e 2025, respectivamente.
Ensino e transmissão
Andréa apresentou um rico texto, no qual extraiu o fio condutor de dois anos de atividades coordenadas por Romildo: em 2025, no Seminário de Orientação Lacaniana Uma Orientação para o Real, e em 2024, no seminário O que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo? – pergunta central para o trabalho de Escola, cujo estudo incidiu sobre a distinção e os impasses que se colocam entre ensino e transmissão.
Neste primeiro encontro, Andréa retoma a afirmativa de Romildo que, em um importante forçamento, distingue ensino e transmissão: “só há transmissão se houver ruptura com o ensino”. Recorrendo a Lacan, no Seminário 15, Romildo insiste que, na passagem do ensino à transmissão, está o ato.
A partir disso, com articulações complexas e sustentadas por uma base sólida, Andréa nos trouxe diferentes aspectos da relação entre ensino e transmissão, tendo a presença do objeto a como fator de formação. Na transmissão, há o ato que marca um antes e um depois da precipitação do objeto a; algo da ordem de um acontecimento de corpo, efeito muito diferente de um saber a mais que se acumula.
É então que ela acrescenta à discussão o sintoma e interroga as relações entre Escola e Orientação Lacaniana, sintoma e Escola, na formação do analista.
Sintoma e Escola
Do vivo da atividade, alguns pontos recolhidos da discussão me tocaram especialmente, também em razão de meu momento institucional, não apenas como membro, mas como parte da Diretoria da Seção Rio. Como fazer Escola? Como se servir das funções institucionais para a formação do psicanalista? O que é autorizar de si mesmo?
Andréa se colocou, de fato, no trabalho, em causa e em formação, e nos deu preciosas indicações para trabalhar tais questões. Ela destaca a passagem sobre “a dança do singular que inclui o coletivo”, extraída do sofisma “Apólogo dos três prisioneiros”, presente no texto “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”, de Lacan (1945), como algo que pode nos orientar. Trata-se, como ela nos diz, “da lógica de algo que é o singular da solidão, de um passo, mas que não é sem alguns outros”.
O cálculo que Andréa faz é pelos nós, pela amarração, onde há sempre a prevalência de um dos registros e a presença do real é o que coloca tudo isso em movimento, evitando tanto a burocratização quanto a universidadização – termo utilizado por Miller em Reinventar a Escola?. O real provoca, ao mesmo tempo, riqueza e dificuldade; empurra-nos com sua capacidade criativa de reconstrução e invenção.
Como, então, furar a máquina institucional para colocar a Escola em movimento? Romildo atualiza a expressão “Escola em movimento” e sugere “Escola orientada”. Penso se tratar da ideia de uma Escola orientada menos pelo saber suposto e mais pelo saber-fazer com o sintoma. A função institucional que cada um ocupa e o modo como a exerce têm relação com seu próprio sintoma e com sua formação. O sintoma é tomado, portanto, não apenas como formação individual, mas como aquilo que faz laço. Cada analista se autoriza por seu percurso e através dos dispositivos do cartel, do passe e da transferência de trabalho, motores que acolhem a singularidade do sintoma. A nomeação, no registro simbólico, atua como o dispositivo que amarra a experiência subjetiva à instituição. Ocupar cargos e executar tarefas não se faz sem o singular de cada um. No exercício das funções, algo do estilo próprio emerge e traz vivacidade – assim se espera – à dinâmica institucional.
Ainda no Seminário, Andréa afirma que não se trata de interpretar o sintoma da Escola, mas da presença do sintoma em uma lógica coletiva – ponto de virada na articulação entre sintoma e Escola.
Do debate que se seguiu, destaco duas contribuições. Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros aborda o que seria o movimento de uma Escola e afirma que o movimento se ancora no real e, por isso, o singular faz furo no coletivo, e vice-versa. O movimento se dá a partir dos furos que se fazem e que, não necessariamente, são crises de ruptura. Ela marca, ainda, a diferença entre agitação e movimento, o que Andrea complementa, sugerindo que a agitação estaria mais para a evitação do furo e o movimento seria aquilo que dá lugar ao que o furo provoca. Ainda no debate, Paula Borsoi nos lembrou da importância da permutação e de como o sintoma de cada um se articula ao real. Destaco a questão da permutação, que corresponde à rotatividade obrigatória das funções, como uma incidência do real, forma que Lacan via como um “antídoto” contra os efeitos de grupo. Entre nomeação e permutação, a Escola tenta tratar o impossível do coletivo.
