Repetir, recordar, elaborar e… Escola!
Jefferson Nascimento
A Nova Política da Juventude (NPJ) representou um movimento inovador nas Escolas pertencentes à AMP. Passado o processo de 2023-2025, argumento que essa experiência teve efeitos de revitalização do desejo de Escola não apenas entre os jovens, mas em toda a comunidade analítica. Se, desde Lacan, tomamos o dispositivo do Cartel como “órgão de base” da Escola [1], fundar a experiência da NPJ por meio desse dispositivo foi apostar, radicalmente, no desejo de psicanálise de cada participante.
Lacan funda sua Escola afirmando: “(Eu) fundo uma Escola… tão só como sempre estive na minha relação com a causa analítica” [2]. Eleva, assim, o Um à condição de ato performativo que rompe com a IPA e suas hierarquias burocráticas. Esse Um é o que resta após o furo da dissolução da SFP: um operador de proliferação singular, onde cada um se autoriza apenas pelo seu desejo de saber, sem mestre garantidor, sustentando a Escola como uma organização circular de trabalhos-uns atravessados pelo real da verdade freudiana.
No cartel, esse Um por Um se atualiza: quatro sujeitos e um +1 produzem elaborações que cortam o saber suposto, ecoando a experiência de Escola como máquina de guerra contra o didata. É a elaboração singular compartilhável, sem suporte em créditos acumulados ou garantias de títulos. Minha participação em um cartel da NPJ, na EBP, foi um reencontro vivo com a experiência de Escola preconizada por Lacan, um espaço de furo e proliferação onde o saber suposto cedeu ao saber exposto via trabalho coletivo.
Sempre estive no que chamei de periferia da Escola. Foi a convocatória para a NPJ e, posteriormente, o cartel, que me possibilitaram o (re)encontro com o desejo definitivo de uma aproximação. Era o momento de sair “dos cantos” e, a partir do significante “jovem”, dizer para o meu próprio desejo de Escola: estou aqui!
Repetir, recordar, elaborar e… Escola! Pois, nesta experiência de cartel, o trio freudiano [3], subvertido pela causa e pelo produto do ato de fundação lacaniano, impõe seu rigor à prática: repetir o furo sem a inércia da compulsão; recordar pelo corte, esvaziando o saber suposto; elaborar o Real que urge na enunciação. No limite, surge o golpe de desejo: bater à porta da Escola. No Um por Um do cartel, a experiência se faz resistência contra o mestre-didata que, vez ou outra, ronda o praticante. Ali, a periferia se torna centro e o resto se torna ato fundante, tal como Lacan o convocou em 1964.
Desejar a Escola é desejar um lugar que falte. É suportar que a instituição não dê todas as respostas, funcionando como solo onde o analista possa, em ato, reinventar a psicanálise a cada vez. É transformar a periferia, ou seja, o que sobra da clínica e do sujeito, no próprio fundamento da transmissão.
