Que relação fazer entre sonho e ato?
Daniela Nunes Araujo
Diante da proposta de dar notícias sobre as aberturas das atividades de 2026 tanto da Seção Bahia, como do Instituto de Psicanálise da Bahia (IPB), interrogo a relação que podemos estabelecer entre sonho e ato, visto que foram os temas apresentados, separadamente, em cada uma dessas atividades.
No dia 03 de março, contamos com a presença de Gilson Ianinni que falou, para o IPB, sobre a obra freudiana A interpretação do sonho e, deste dia, destaco o detalhe da nova tradução: o singular da palavra sonho. Gilson relembra que Freud não estaria apenas fazendo um acervo onírico dos sonhos, mas estava estudando o objeto sonho e a singularidade de cada sonho e cada sonhador, aqui e agora. Freud, em seu percurso, passa do sonho para o inconsciente, de uma teoria geral da mente para o psíquico, do sonho para o sujeito[1].
Já no dia 04 de março, os colegas da Diretoria da Seção introduziram os estudos sobre o Seminário 15, de Lacan, O ato psicanalítico[2], nosso objeto de trabalho este ano. Destaco o exemplo retomado por Julia Solano com a passagem do Rubicão, “paradigma” da diferença entre ato e ação. O que seria um ato ali? O momento em que César atravessa o Rubicão. Não pelo esforço físico, até porque esta ação não foi grandiosa, deu-se apenas por um salto. Mas, a partir daquele instante, ele é outro – e isso não é sem consequências em sua vida. Passa de general da República a rebelde.
Portanto, o que foi o efeito da obra A interpretação do sonho para a psicanálise senão um marco? Um ato? E o que é um ato senão a instalação de um antes e um depois? Efeito de interpretação?
Miller afirma que, na experiência analítica, o ato é um ato falho. É assim que Lacan teria concebido o ato analítico. Ao dizer que o analista só se autoriza por si, isto teria a mesma estrutura que o suicídio. Também por isso, Lacan formulou que o único ato que pode ser considerado bem-sucedido é o suicídio; ao preço de não querer saber nada sobre nada, ou seja, de se separar do que Miller chamava de equívocos da fala. “E nisto, é preciso dizer, ele se opõe à psicanálise, que é uma passagem ao ato falho”[3]. O ato falho, portanto, seria o pensamento inconsciente que emerge no pensamento consciente, na fala, no corpo, e desloca o ato, faz com que diga outra coisa.
Para Miller, a essência do pensamento quando tomado a partir do inconsciente, é a dúvida. Seria, como que, a partir do momento do recalque, só se pensaria no elemento do “eu não sei” – tal qual dito por Freud. E a indeterminação do inconsciente se veria nos sonhos: neles, ele não sabe onde está. Aqui, ainda que saibamos das formações do inconsciente, Miller apresenta uma aproximação do sonho ao ato falho de uma outra maneira.
Então, a partir do dito neste pequeno recorte, causado por detalhes nas atividades de abertura mencionadas, e retomando a pergunta inicialmente estabelecida: que relação fazer entre sonho e ato? Será que podemos responder que, na experiência analítica, o sonho é um ato – porém falho?
