Pluralização da guerra. Paradigma do progresso
Oscar Reymundo (EBP/AMP)
“Padre, alguien anda pintando el cielo de rojo
Y anunciando lluvia de sangre.
Padre, asómese por que son ellos que están matando la tierra
Padre, deje usted de llorar que nos han declarado la guerra”[1]
Tocado profundamente por um panorama mundial no qual os conglomerados privados, há anos também atuantes na América Latina, veem ocupar o lugar de novos governos que decidirão o rumo de países que talvez continuem mantendo o nome, mas que já ingressaram numa nova dimensão que está se consolidando para garantir as crises do capitalismo financeiro atual. Alarmado com a crescente brutalidade e crueldade dos organismos de segurança desses países-mercados; com o predomínio da lei da selva mascarada de “discurso libertário”; o avanço da desregulação neoliberal e a consequente perda de direitos de cidadania duramente conquistados. O avanço da violência racial, da violência de gênero e do feminicídio. As repetidas tentativas de justificar, em nome da paz e da civilização, a imposição de discursos extemporâneos; a invasão de terras e a apropriação ilícita de recursos naturais; o extermínio de povos e nações de maneira cada vez mais sofisticada e sistemática. O avanço sem controle da devastação da natureza. A progressiva deterioração dos laços sociais como consequência da profusão de notícias falsas promovidas pela Internacional do Ódio.[2]
Este panorama de barbárie desolador que põe em grave risco o que ainda nos resta de civilização, me leva a consultar a produção de outros autores que, se bem não pertencem ao campo psicanalítico, guardam com ele afinidade, e jogam alguma luz no processo de desintegração das assim chamadas pautas civilizatórias e, ao mesmo tempo, da democracia.
De “Pensar después de Gaza”, de Franco Bifo Berardi, extraí um parágrafo que, de alguma maneira, faz alusão à ferocidade da satisfação pulsional nestes tempos de fragilidade, rigidez e extravio de uma civilização afetada pela dissolução do Nome do Pai.
“Desde que el lenguaje se ha convertido en el campo de batalla en el que los más poderosos imponen su sentido; desde que en nombre da la velocidad de circulación de los signos-mercancía, se han cortado las vías de la crítica y del pensamiento independiente, hemos entrado en el reino de la ferocidad […] En el reino de la ferocidad, toda forma de lenguaje se convierte en un instrumento de sometimiento y exterminio”[3]
Talvez eu não consiga formular melhor o que, à luz dos acontecimentos dos últimos tempos, em diferentes pontos do planeta, incluída nossa América Latina, consigo perceber, não sem aflição e com maior clareza: certa desatenção a um conjunto de signos que indicam, a cada vez, despudoradamente, que as leis são elaboradas pelos dominadores em seu próprio benefício e que aos mais débeis só resta se submeter aos caprichos dos que dominam.[4]
Poucos dias depois da primeira vitória eleitoral de Donald Trump (2017), numa entrevista no Washington Post, Paul Horner, um urdidor de fakes news profissional, se atribuiu ter sido o responsável pela vitória de Donald Trump. “Os simpatizantes de Trump constantemente estavam fazendo eco do que eu publico nos meus sítios. Acredito que Trump está na Casa Branca graças a mim. Seus seguidores não conferem nenhuma informação, eles são capazes de postar e de acreditar em qualquer coisa”[5]. Não é isso, em boa medida, o que está acontecendo ao nosso redor, cuja manifestação mais clara é a ascensão de governos neofascistas eleitos pelo voto popular?
“El goce abusivo del Outro y la experiencia de goce en el propio cuerpo no son dos registros incompatibles. Hay una intersección. Esto es lo que en la experiencia analítica constatamos que puede tener un valor traumático real para el sujeto, real que no se universaliza y que retorna siempre al mismo lugar. Por supuesto, esto no justifica, ni autoriza, ni da ningún valor moral a ninguna forma del abuso”[6]
Será que ainda não entendemos que a hora das palavras se aproxima do seu fim e que tantos jovens, e nem tão jovens, por exemplo, acreditam encontrar o Outro da garantia, compreensivo, que tudo explica e responde, no ChatGPT? Não são poucos os psicanalistas que dão testemunho sobre as interrogações que os fenômenos sociais colocam para a própria práxis psicanalítica e sua incidência efetiva no sofrimento, nestes tempos em que o capitalismo, em sua reprodução ideológica, atinge pontos chaves na própria constituição do sujeito segregando-o da palavra e, por isso mesmo, tornando-o vulnerável.
“A guerra, hoje, transborda os campos de batalha e os métodos empregados se multiplicam em todos os âmbitos das nações e da tecnologia”[7]. De fato, hoje assistimos a guerras intermináveis no campo da cultura, do mundo financeiro, das redes sociais…Tempos de progresso, de avanço das ciências e das tecnologias que não impediram Freud de falar da escuridão da pulsão de morte, uma pulsão agressiva e autônoma que constitui o grande obstáculo onde a cultura tropeça. Estes são tempos nos quais fica mais claro do que nunca, que a Paz não é mais do que uma frágil trégua entre guerras. Tempos nos que se torna evidente o divórcio entre capitalismo e democracia. Tempos do colapso do discurso que sustentava o sujeito. Uma linha foi transposta e, já faz tempo, nos deparamos, pelo mundo afora, com os efeitos de devastação simbólica dessa transposição, quer dizer, com os efeitos da ascensão de um gozo ilimitado.
Miller esclarece que o avanço científico e sua aliança com o capital tem produzido uma perturbação na ordem simbólica, quer dizer, um debilitamento da função do Nome-do-Pai que, pela via da proibição, atuava como uma barreira ao gozo. Esse debilitamento do simbólico produz novos sintomas, assim como mudanças na subjetividade da época e profundos impactos na civilização.[8] Em outras palavras, estes são tempos em que temos de nos haver com a insistência de um real sem lei e com a desordem no real. Desordem que também se manifesta no fato de que o progresso de alguns poucos autoriza, de maneira desembestada, o ódio, o extermínio do opositor, a repetição do genocídio colonial e, em definitivo, a devastação simbólica. “El primer abuso de poder es siempre un abuso de lenguaje.”[9]
“O âmbito do bem é o nascimento do poder […] Foi Freud quem se encarregou de desmascarar o que quer dizer a noção de disposição dos bens. Dispor de seus bens, todos sabem que isso se acompanha de uma certa desordem, que mostra, suficientemente, sua verdadeira natureza, uma vez que dispor dos seus bens é ter o direito de privar os outros dos seus bens.”[10] E acrescento, de privá-los, até, da palavra.
Então, qual o lugar da política, da ética, da prática analítica num mundo que promove um gozo incessante, desvinculado da regulação simbólica e desprovido de qualquer limite ético e em que a ciência, na sua vertente tecnocientífica, propõe um mundo orientado pelo ideal da eficiência que pretende dominar o real? Tudo parece indicar que, nestes novos tempos, os psicanalistas, cada um do seu jeito e segundo suas possibilidades, possamos testemunhar, dentro e fora da nossa comunidade, de que lado estamos nessa sinistra reprise do Vale Tudo para a qual os novos Hitler nos estão arrastando.
