O que convém ao que não existe
Fernanda Fernandes
Neste sobrevoo, pousaremos numa atividade da Seção Leste Oeste intitulada: O que convém ao que não existe, este também é o título do verbete em que a convidada Flávia Cêra escreveu para o Silicet Não há relação sexual. Sob coordenação calorosa de Jaqueline Coelho e comentário generoso e profundo (como qualificou Jaqueline) de Carla Serles.
Interessante que logo no início da conversa, Carla aponta um traço marcante nos trabalhos de Flávia, que é “a visada sempre presente do laço social”, talvez tenha sido este o motivo de uma conversa viva, animada e calorosa, em que os participantes se sentiram à vontade para entrar na conversa em um papo teórico leve, porém denso e muito rico, afinal o verbete escrito por Flávia foi fruto de um cartel de trabalho em torno do aforismo lacaniano “A noção de conjunto vazio convém à relação sexual”, situado no Seminário O momento de concluir.
De início, a própria Flávia faz a leitura de seu texto e nos adverte: o que a análise vai produzir é a ressonância disso (referindo-se ao gozo produzido pelo choque entre língua e corpo) e é só com um vazio que alguma coisa pode ressoar. E vimos, nesta conversa, que é justamente nas ressonâncias do que foi produzido em análise que podemos tocar no social. Dentre suas questões, Carla destaca esta frase do verbete: “se o Um não faz dois e diferencia-se do Outro, como então viver-junto e se enlaçar ao Outro?”, e convoca a refletir que a relação com o Outro deixa de ter primazia e de ser estrutural, pedindo a Flávia para comentar sobre a operação que torna o vazio um furo, a fim de nos aproximarmos da sociologia lacaniana.
O ponto vivo deste encontro foi a ideia de coletivo em Lacan, pois o trabalho da análise sempre tem consequências no laço. E a operação do vazio e do furo é o que vai permitir os rearranjos com as marcas produzidas em análise, assim também falamos da política do sinthoma, pois ele é um arranjo que se faz com essas marcas. Após uma questão sobre como verificar no cotidiano da clínica o que estava sendo pontuado, fomos levados a pensar na importância do tempo de tratamento, tempo de trabalho analítico para fazer emergir e tempo para subjetivação desta operação de vazio e de furo, que estão sempre presentes, mas nem sempre evidentes no cotidiano da clínica.
Finalizando com um comentário de Bartyra, que nos levou a um passeio pela construção teórica feita por Freud e Lacan, observando que ela vê muito de Freud no último ensino lacaniano. Flávia entra no passeio, ressaltando o que se carrega num percurso, seja no teórico ou na própria experiência de análise. E encerra sua participação com uma questão/reflexão: “a leitura do inconsciente não é justamente o que favorece uma política do Sinthoma?”
