O cartel e a NPJ: Decantar, catabolizar, relançar o novo.
Marina Fragoso (EBP/AMP)
Na Escola de Lacan, o jovem é aquilo que nos vincula à experiência com o inaugural. Como afirma Jacques-Alain Miller: “Em uma Escola, tudo é da ordem do analítico. É um axioma, a condição para que uma Escola seja interessante.”[1] Durante a experiência da NPJ, poder deslizar de uma identificação a categoria “jovem” em direção ao jovem como causa produziu efeitos de formação, efeitos esses que também tiveram a ver com os cartéis e as elaborações provocadas por esse trabalho. Foi preciso deslocar-se do entender-se como “jovem” e tirar consequências disso, afastando-se daquilo que Miller nomeará como o adoecimento mais terrível do nosso micromundo: “a repetição de enunciados que apagam a enunciação”[2]. Nesse caminho, o cartel, como catabolizador de enunciados em enunciação, foi um dispositivo que permitiu fazer decantar e relançar perguntas óbvias ao estatuto do novo.
Em uma Escola, as perguntas precisam ser relançadas. Ao propor a NPJ, Miller aposta em um saber pela via da enunciação, orientado pelo discurso analítico. O saber que interessa à Escola não se sustenta no acúmulo ou nas respostas prontas mas justamente no furo. Por isso, nenhum dispositivo ou política deve ocupar o lugar de “salvar” a Escola da institucionalização. Cabe lembrar que “não existem verdades reveladas, nem dispositivos de uma vez por todas; essa é uma marca distintiva da nossa vida institucional, de seus sobressaltos e de qualquer política que aspire a se denominar lacaniana”[3]. O conceito de Escola parte da sua própria e constante reinvenção.
Esse real exige que estejamos advertidos de que o “fazer Escola” é da ordem de um artesanato, uma invenção com o que cada um oferece de si. Reinventar a Escola exige afastar-se da “paz institucional”, muitas vezes perturbando as próprias defesas do que nos institui enquanto sujeito. Trabalhar para o discurso analítico é “deixar em aberto a pergunta sobre a responsabilidade com que cada um, de maneira contingente, se serve do discurso analítico para servir a ele, como também para rejuvenescê-lo e reinventá-lo, na prática e na Escola, cada vez”[4]. O que torna a Escola interessante é o que relança cada um ao divã, permitindo a aproximação da enunciação e do “grão de loucura” que tece o desejo em direção à causa analítica, aquilo que o sujeito poderá fazer com seu horror de saber, transformando-o em desejo de saber. A libra de carne que faz da nossa formação uma prática sempre orientada por uma causa que é, por definição, jovem.
