Ler já é escrever
Eduardo Vallejos da Rocha (EBP/AMP)
Ler um sintoma na época do Outro que não existe foi o tema de trabalho escolhido pela Diretoria da Seção São Paulo para o biênio 2025-2027. No dia 04/03/26, para abrir as atividades deste segundo ano, Maria Josefina Sota Fuentes foi convidada para proferir uma conferência, intitulada Do sintoma ao sinthoma.
Fazer um percurso do sintoma ao sinthoma, como a própria autora nos diz, “envolveria praticamente todo o ensino de Lacan”[1]. No entanto, no próprio desenrolar da conferência, ela nos oferece não apenas um fio condutor dentro do ensino de Lacan, mas inclui também importantes referências freudianas que são fundamentais para compreendermos o momento em que “Lacan se solta da mão de Freud para se deixar guiar por Joyce em suas investigações sobre o que ele chamou de sinthoma”[2].
Destacarei três referências. A primeira, sua referência de partida, a “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, onde Lacan desenvolve a ideia de que há algo no sintoma que resiste à decifração, que não se submete às malhas do sentido e que, portanto, não se configura como formação do inconsciente relativa ao discurso do Outro. A segunda e a terceira são referências freudianas em que já podemos localizar o embrião deste real impossível de ser capturado pelo simbólico e imaginário, presente no ultimíssimo ensino de Lacan. Trata-se da lição 23, “Os caminhos da formação do sintoma”, nas Conferências introdutórias à psicanálise, e do texto “Análise terminável e interminável”. Na primeira, “Freud procura não mais o Sinn, o sentido, mas a Bedeutung, a referência do sintoma ligada ao real de uma satisfação pulsional, obscura e dolorosa, da qual o paciente se queixa”[3]. Já em “Análise terminável e interminável”, Freud se depara com o fato de que toda análise deixará resíduos, restos inelimináveis, ligados, justamente, não ao que se decifrou do Complexo de Édipo no sintoma, mas a esta satisfação paradoxal e desprazerosa irredutível, “ligada às primeiras experiências do traumatismo que a sexualidade deixa como marca no corpo do ser falante”[4].
A discussão posterior se desdobrou em torno das consequências desta marca/letra no ser falante, que se diferencia de uma significação ou de uma impressão no corpo. Articulou-se ao tema da letra o moterialisme, neologismo de Lacan que aponta para a materialidade do significante como o que atrapa o corpo. Trata-se de abordar o sintoma não apenas como efeito do significante que vem do Outro, mas como matéria de lalíngua que escavou e se alojou no corpo. Ler um sintoma, portanto, se entrelaça com o próprio trabalho de escrita do inconsciente, não o transferencial, mas o inconsciente real.
Do fio que vai do sintoma freudiano passivo de decifração ao sinthoma como um modo de saber-fazer com o gozo mudo e fora do sentido, ficou evidente uma conexão direta com o último congresso da AMP, Não há relação sexual, e também com o tema do próximo, O impossível de suportar: forjar para si um sinthoma que demonstre que entre dois não há complementaridade no nível do gozo, implica, necessariamente, consentir com o que há, com o que é impossível de suportar, com o que em cada um é inaceitável e atemporal.
Se o sintoma é o que não cessa de se escrever, lê-lo não significa “fazer a leitura do que sempre esteve escrito ali, nas profundezas do inconsciente”[5], mas verificar que há uma letra que está sempre sendo escrita a partir do furo que os sons e as palavras escavaram no corpo do parlêtre, tanto na vida quanto na análise. A vida, impossível em sua contingência, é corte, assim como o dizer do analista, que em seu ato instaura a fenda que, ao mesmo tempo, participa da escritura do sinthoma, modo singular e, quem sabe, menos mortífero de gozar. Neste sentido, estar aberto à contingência é poder suportar “um bem-dizer (…) que é corte – e um saber ler que estão do lado do ato do analista”[6] e é nesta perspectiva da transmissão de um dizer surpresivo que é corte, do analista ao analisante, que “ler já é escrever uma vida, sempre em aberto”[7].
