A seção Zona Extima apresenta temas que dizem respeito à Escola, ao ensino e à transmissão da psicanálise de Orientação Lacaniana. Neste número fizemos algumas perguntas para Ondina Machado desde a sua experiência de Analista da Escola que tinham em perspectiva a transferência, positiva, negativa, no fim e seu valor de uso, a supervisão, fantasma; inibição, ato analitico entre outros temas que atravessam a experiência analítica e estão presentes nas pontuações que Ondina muito generosamente nos ofereceu.
Correio Express: Você fala, a partir da inibição como sintoma, sobre a denúncia do furo no Outro, como poderíamos pensar a diferença entre denunciar o furo no Outro e o haver-se com esse furo? Você pensaria essa distinção como um momento fecundo ao ensino?
De certa forma sim, pois a inibição sempre supõe um Outro todo, consistente, sabichão. Se não houver, ao menos, a suposição de um furinho no Outro, não há o que dizer porque o Outro sabe tudo. Assim, o passe 3, como o Miller diz, é o momento do ensino do passe, o momento em que o AE arrisca um bem dizer extraído da sua análise.
Correio Express: Em “Matizes da transferência”[1], lemos que o corte transforma o banal em fundamental e que o analista deve vir como construção do analisando, sem nenhum estímulo do analista. Se um analista, em sua prática, dirige um tratamento e não seu analisante, como um sujeito pode fazer uso das intervenções do analista? Como as intervenções dele podem reverberar enquanto atos?
Não voltei ao texto, mas se disse isso me expressei mal. Claro que só há analista se o analisante o considerar como tal e, de certa forma ele precisa fazer parte do sintoma do analisante, fazer parte da sua vida íntima, das suas conjecturas, suas fantasias, mas isso não se dá totalmente a revelia do analista. Ele deve ao menos consentir em estar nesse lugar, consentir em fazer parte da neurose transferencial do analisando. O ato analítico, como todo ato, só é ato por suas consequências, não há ato em intenção. Se fez clique foi ato, se não fez, não foi. A expressão “direção do tratamento”, da qual nos servimos, tem mais a ver com a orientação do que propriamente com a ideia de tomar o leme e levar o barco a um determinado porto. Nunca se sabe o rumo que uma análise vai tomar e é precisamente isso que quer dizer a orientação para o real. Ele não é um ponto determinado no mapa, ele é o desconhecido, o limite do saber entendido como razão, o umbral da linguagem que tende à lalingua.
Correio Express: Em sua transmissão você diz que a transferência no fim não é o fim da transferência e segue com Jacques-Alain Miller dizendo que não há grau zero da transferência. Qual é o destino da transferência, ao final da análise, dirigida à Escola e para fora da Escola? Considerando que os casos funcionam como nossas evidências, como um passe pode ressoar na cidade?
A transferência nada mais é que o investimento que o analisando faz em direção ao analista e isso é neurótico. O analista não só é suposto saber como é suposto ser. O ser e o saber investidos no analista, pouco a pouco vão retornando ao sujeito que, lá pelas tantas, se dá conta que não só não há saber como não há ser. Acontece, então, um reencontro do analisando com seu próprio saber. No entanto, trata-se de um outro saber, aquele que não se toma como todo saber, é mais uma aposta que do dizer um saber surgirá. E quanto ao ser, se descobre que não há perenidade, não há consistência nesse sentimento de ser.
Correio Express: Pensando na construção e no atravessamento do fantasma, você poderia comentar algo sobre essa certa liberdade no manejo das análises conduzidas por você?
Essa liberdade que mencionei é mais sob o ponto de vista do ato analítico. Menos guiada pelo que devo ou não fazer de acordo com a teoria e mais guiada por aquilo que escuto, tendo em vista que a análise tem o real como horizonte. Aí entra a supervisão, é nela que, digamos, se calibra o desejo do analista distinguindo-o do desejo neurótico, por exemplo, de querer curar, julgar, dirigir, enfim.
Correio Express: Você fala da certeza do término vivida como um ponto de não retorno. Considerando que isso permite decantar um desejo de passe, como essa certeza se enlaça no modo de sustentar um dizer? Ela produz algum efeito na relação com o saber?
A certeza do término é quase um fenômeno elementar, pelo menos foi assim para mim. Ela pode ou não coincidir com o desejo de passe. Se isso acontece e há nomeação, o dizer singular e o saber contingente se demonstrará no ensino que o AE fará por 2 anos. Cada um tem um jeito que descobre fazendo, talvez nem o AE saiba ser capaz, mas o cartel certamente deve levar isso em conta.
Correio Express: Em um de suas transmissões como AE, você afirmou que uma análise que dura tem muita coisa do que não é analítico — e que é necessário consentir, neste percurso, com o analítico. Como, então, consentir com o analítico em uma análise?
Consentir é analisar, mas às vezes é necessária uma forçadinha. O chamado analista trauma é um pouco essa forçadinha.
