Como foi sua experiência com o trabalho de cartéis da Nova Política da Juventude?
Foi surpreendente!
Rômulo Ferreira da Silva
Ao receber o convite para o trabalho com a NPJ sob o tema “O Ensino da Psicanálise e a Formação do analista”, com 24 cartéis envolvendo 49 jovens no dispositivo, minha reação foi: isso não vai dar certo!
Porém, não recuei do desafio e logo no início do trabalho, o entusiasmo dos três jovens e das duas colegas membros de Escola me contagiou. As perguntas surgiram: O que é um analista? O que não é um analista? Quais são os pares que podem compartilhar uma resposta para essas perguntas?
O tema da formação do analista para avançar a partir dessas perguntas nos levou aos textos clássicos referentes à Escola de Lacan, tomados então, com a empolgação juvenil.
Um ponto de chegada que relançou ao trabalho foi o desejo do analista. Do que se trata? O que a Escola espera de um jovem analista? Foi daí que surgiu a minha questão para o cartel: Efeitos da Nova Política da Juventude na formação do AME.
Christiane Alberti coloca em questão a esperança que Lacan associa à juventude em 1974 na Itália, tratando-se da necessidade de que haja a psicanálise, que haja psicanalistas que a sustente.[1] Necessitando da juventude, já que ela é uma placa sensível à contemporaneidade.
A iniciativa da EBP de criar dispositivos através do Cartel, reunindo jovens, membros e um AME provocou a circulação de ideias sobre o funcionamento de Escola, o próprio cartel, a formação e a responsabilidade do analista diante do movimento incansável de eliminação da psicanálise no mundo. A enunciação prevaleceu nas várias reuniões que tivemos em torno dos textos clássicos sobre a formação do analista, permitindo proposições autênticas sobre o encaminhamento dessa nossa empreitada. O frescor da juventude não só nos colocou em questão, mas também trouxe abertura em vários pontos que podemos cair no risco e abordamos dogmaticamente, demonstrando o viés fundamental da permutação, da conversação e da necessidade de não nos pautarmos nas suficiências.
No texto Racismo 2.0, Laurent[2] retoma o Tempo Lógico de Lacan a partir da Teoria de Turim de Jacques-Alain Miller[3], para expor uma primeira rejeição pulsional como o que rege a lógica do laço social, sublinhando “que todo conjunto humano comporta em seu fundo um gozo deslocado, um não-saber fundamental sobre o gozo, que corresponderia a uma identificação. O psicanalista é simplesmente aquele que deve sabê-lo para constituir a comunidade daqueles que se reconhecem como psicanalistas”[4].
Sendo os jovens a nossa placa sensível em relação ao gozo dessa época, nada mais indicado do que os tomar como ponto de orientação ao invés de tentar fazê-los entrarem nas formas de satisfação e funcionamento que nos deixam mais confortáveis.
