Clínica do excesso, clínica do resto, clínica da borda
Cristiane Grillo (EBP/AMP)
A puberdade é pensada por Freud[1] como metamorfose e como travessia de um túnel perfurado simultaneamente desde as duas extremidades.
Atravessar um túnel em construção envolve risco de desabamento, de colapso de um furo pelo qual pode ser possível passar. Mas a imagem do túnel é também a de uma borda. Dentro, há um furo. Dentro, o troumatismo, o furo produzido pelo trauma pode se alojar.
Lacan fala da adolescência como um tempo de maturação do objeto a[2]. E no prefácio que escreve para a peça O despertar da primavera, postula que os jovens só poderiam fazer amor com o recurso dos sonhos[3].
A tessitura dos sonhos, de um véu, também poderia ser pensada como túnel, borda para uma sexualidade sempre excedente, estranha e inominável.
Eu já revirei a enciclopédia, do A até o Z. Palavras, só palavras e mais palavras! Mas nem uma única e simples explicação do que realmente acontece. Essa sensação é estranha — de vergonha. Para que serve uma enciclopédia que responde a tudo, menos à pergunta mais importante sobre a vida?[4].
Hoje, nas enciclopédias virtuais, não há falta de explicações ou de respostas. No mercado, há um excedente de objetos que se propõem a obturar o furo, a elidir a dimensão da perda. Esse excesso que marca a clínica hoje é tomado por Domenico Cosenza[5] como um dos nomes do real. Um real que o analista deve enfrentar[6]. E se oferecer como um objeto estranho aos disponíveis no mercado:
… esse objeto insensato que especifiquei pelo a. É isso que se apanha na fixação do simbólico, do imaginário e do real como nó. É ao pegá-lo em cheio que vocês poderão responder ao que é a sua função – oferecê-lo como causa de seu desejo a seu analisante[7].
Esse objeto estranho e insensato pode produzir um efeito de enigma, de humor. Pode até fazer borda[8].
Os pais de Lis, em uma primeira entrevista, falam dos diagnósticos da filha de 13 anos: autismo, TDAH, depressão. Eles a descrevem como alguém incapaz de cuidar de si, do corpo. Na semana seguinte, Lis vem sozinha, disposta a ir depois da sessão para a casa de uma amiga, que mora em um bairro distante do consultório, sozinha e a pé. Pontuo o risco, a distância e lhe digo para pegar um táxi e me avisar quando chegar na casa da amiga. Essa primeira intervenção marca uma série de outras que visam fazer borda a um excesso. Um excesso de gozo que desborda do corpo adolescente que fica à deriva, com imagens expostas nas redes sociais, nas quais fala do seu sofrimento e dirige um discurso de ódio a outros. Um excesso que provoca sua saída de sucessivas escolas, e uma internação hospitalar.
Nessa deriva pulsional, o discurso da psicanálise pode oferecer uma ancoragem, soldando o analisante ao par analista-analisante[9]. Na clínica do excesso, na clínica do resto, trata-se de instaurar uma clínica da borda, que permita uma travessia possível no túnel em construção, que pode alojar um furo:
… fazer existir um vacúolo, um pequeno espaço onde reina o vazio, para dizer e resolver o problema colocado para cada um, feito por significantes, mas também pela carne[10].
