A sintaxe do amor
Ary Farias (EPB/AMP)
Afinal, do que tanto se fala em uma análise?
Fala-se de amor – essa foi a resposta de Lacan, que completou: “falar de amor é, em si mesmo, um gozo.”[i] Sob o pano de fundo inamovível da não-relação sexual, o amor, portanto, é o credo universal que faz suplência a esse impasse estrutural e permite consoar as dissimetrias de gozo entre os falasseres.
O que cessa de não se escrever – eis aqui a expressão da engrenagem amorosa em Lacan; logo, uma perspectiva que inscreve o amor na ordem do acontecimento, da surpresa e do imprevisto.
No contemporâneo veloz, nesse vilarejo global regido cada vez mais pela ordem utilitarista, pelo excesso, pelo imediatismo e seu rosário de imagens, o amor, não raro, aflora como uma operação insensata. Um contratempo na rotina dos imperativos de performance e empreendedorismo de si, os novos ideais do sujeito no século XXI.
Fundado no espaço da concessão do gozo ao desejo, na matéria própria da linguagem, o amor é um dizer, uma demanda de articulação dirigida ao corpo do outro. “Não somos objetos de desejo senão como corpo.”[ii] Nessa perspectiva, o amor se estabelece enquanto prática de endereçamento afetivo a um atopos – esse outro que carrega em seu corpo as insígnias do objeto a, por isso, inclassificável, radicalmente singular e sem igual. É o amor que permite a sustentação dessa mágica impostura.
Contudo, a subjetividade atual parece encurralada por um individualismo de massa que aplaca o ímpeto do encontro. A clínica analítica testemunha cada vez mais a crônica de corpos inóspitos à erótica do amor. Sob a égide do consumo e do desprestígio da palavra, o amor sucumbe à velocidade do tempo e seus efeitos de descarte. Nesse âmbito, o amor revela-se anacrônico, vagaroso. Requer uma cadência que contraria a religião do imediatismo produtivista. Ele exige do sujeito comparecer com o corpo imbuído de alguma verve sexual e, fundamentalmente, coragem para sustentar os impasses inerentes ao próprio encontro. Efeito da castração, o amor faz borda ao impossível, ao agramatical do gozo que reina na solidão do corpo do Um. Tem efeito de emplasto simbólico frente ao desamparo e à dor de existir.
Sempre em busca de capturar o zeitgeist, o espírito de sua época, o analista lacaniano certamente admite que estamos vivendo sob a atmosfera do realismo capitalista, cujo domínio se espraia para todas as esferas do ambiente do falasser, incidindo inclusive, e sobretudo, na formação dos cabrestos simbólicos e imagéticos que balizam a realidade, repercutindo na bula e uso dos corpos, nos modos de laço e gozo. Um tempo em que a deflação da palavra ocorre em simultaneidade ao zênite da imagem. Isso não é sem efeito; ao contrário, uma vez que sustenta o homo videns (o homem que vê), efeito da transição do homem que pensa de forma abstrata (mediado pela palavra escrita e falada), para o homem que apenas processa imagens. Da ágora ao ecrã, do coletivo ao isolamento. Se a palavra perde viço, perde seu poder de invocação. Logo, estamos no tempo em que o Outro perde poder de regência e balizamento, devotando o sujeito ao exílio do gozo solitário. Todos esses fenômenos traduzem a impotência para o enfrentamento do amor como prática de palavra, um jogo simbólico que, apesar da “orto-oposição” estrutural (a ͢ a’), deve ser enfrentado não na perspectiva de sua anulação, e sim enquanto desafio de sustentação da diferença, no desencontro do gozo submetido ao tratamento simbólico, via discurso amoroso. Consentir ao afeto amoroso denota, de algum modo, “rasgar o hímen da linguagem”[iii], uma vez que desejar alguém é, muito precisamente, “implicá-lo em sua fantasia fundamental”[iv].
Por fim, a prática da clínica psicanalítica permite ao analista testemunhar ao vivo os arranjos do sujeito na “conjunção do desejo com seu objeto inadequado”[v], isso que chama de amor. Ao analisante, agora advertido daquilo que não se escreve (o real, a relação sexual e a mulher), cabe forjar alternativas líricas que lhe permitam sustentar um regime de gozo não aversivo à presença do outro do amor: “[…] no meio do caminho tinha uma pedra, no meio da pedra tinha um caminho”[vi].
