Sérgio de Castro
Parece haver um ideal, orientador e paradoxal, presente em qualquer modalidade de fascismo. Porque sim, os fascismos são muitos e variados, mas mantendo também elementos típicos e presentes em qualquer um deles, como soube indicar o historiador Robert Paxton ou o filósofo Umberto Eco, com seu quase conceito de UR-fascismo. Eco aqui recorre a essa partícula da língua alemã que conhecemos bem em palavras como UR-verdrangung, ou recalque primário ou UR-Vater, pai primevo. Eles serão todos, como pretende o filósofo Eco ao eleger elementos comuns entre eles e agrupá-los sob tal partícula, um culto à morte.
Tal ideal será explicitado no lema dos falangistas espanhóis, durante a guerra civil que assolou aquele país na década de 1930: “Viva la muerte”! ou “ Viva a morte”!
Se a pulsão de morte aparecerá sempre mesclada com a pulsão de vida, no próprio movimento e ruídos dos processos civilizatórios, o fascismo, em seus elementos mínimos( o que me permitirá usar o singular),desenvolverá o culto à sua manifestação a mais pura possível.
Trata-se do ideal de produzir “em ato” a irrupção da pulsão de morte em sua maior contundência, desvinculada de qualquer resquício civilizatório: o ato mesmo de matar, quando o silêncio radical da pulsão de morte prevalecerá.
O heroísmo, outro elemento típico dos fascismos, consistirá fundamentalmente nisso: o herói fascista será aquele que mais sucesso tiver no trato com a morte, quer dizer, o que tiver ido mais longe na missão de tal herói: produzir morte, e mais mortes! Morte em massa, como demonstrou o holocausto,( e não apenas a crédito, como descreveu um de seus adeptos, o escritor Louis Ferdinad Cèline) ou igualmente demonstram políticas atuais de alguns estados nacionais, claramente de pretensões etnocidas e genocidas. Nesse sentido podemos dizer que o ex-presidente Bolsonaro, com sua política negacionista da pandemia, obteve um sucesso extraordinário, tendo inclusive sido alçado, pelos que agora pensam em votar em seu filho, à categoria de herói. Ou mito, como desde que se apresentou à política, em escala nacional, foi chamado por seus asseclas.
Portanto preparemo-nos: na hipótese de Bolsonaro filho vencer, toda uma política orientada em direção à morte, que podemos de forma muito adequada chamar de necropolítica, será novamente desencadeada.
Ela se manifestará, como já o fez, em invasões de exposições de arte, em apresentações teatrais, em unidades de saúde pública como os Cersans em Belo Horizonte, visando demonstrar o desperdício de dinheiro público com atendimentos que sequer existiriam, ou mesmo em hospitais privados como o Hospital Madre Tereza, quando tal instituição católica foi invadida por grupos que a acusavam de difundir dados falsos e hipertrofiados sobre atendimentos de casos de Covid! Claro, visando demonstrar, no caso, que a pandemia era uma invenção dos chineses, dos liberais ou da esquerda internacional!
E quem ou o que deverá morrer em regimes fascistas? Fundamentalmente a alteridade, vale dizer, a diferença ou os diferentes! Aqui entrarão as minorias, sejam elas as sexuais, ou as ditas raciais, nesse termo fictício e anti-científico mas caro a seus adeptos, que se esquecem de que o racismo será sempre de discurso, como o demonstram exatamente os fascismos; ou as culturais num sentido mais amplo, onde a expressão “ guerra cultural” se esclarece em sua literalidade: tratar-se-á aqui, também, sempre que possível, de matar, seja pela censura seja mesmo literalmente; enfim qualquer gozo diferente do eleito por eles, sempre numa perspectiva moralista, onde um higienismo dito purificador da cultura, da raça ou dos costumes tentará se impor.
Ora, se considerarmos que o desejo do analista será aquele de produzir a diferença absoluta podemos entender melhor porque a psicanálise será sempre objeto de ataque ou de tentativas de controle em regimes de vocação fascista, como a que reiteradamente se manifesta no Brasil por meio de parte dos religiosos neopentecostais, a fim de domestica-la e silencia-la. Vale dizer, com o intuito de tornar sua prática impossível.
