Ana Lydia Santiago
As relações com as palavras, em nossa época, adoeceram? De onde vem esse vocabulário de ódio, essa gramática da intolerância que avança pelo mundo inteiro? Estamos testemunhando uma verdadeira linguagem da destruição, uma força que corrói o tecido democrático e desmancha o que ingenuamente considerávamos uma conquista garantida.
É tentador culpar as telas que carregamos no bolso. É fato que as redes digitais, governadas pelas big techs, tornaram-se o laboratório perfeito para essa violência. Seus algoritmos operam uma engenharia social silenciosa: capturam a nossa atenção, mercantilizam o nosso medo e induzem o extremismo.
No entanto, o diagnóstico precisa ser mais agudo e profundo. As plataformas digitais são o sintoma, não a doença. Elas apenas abriram as comportas de uma represa que já estava cheia. O que vemos emergir hoje não é uma criação da tecnologia, mas o eco de fraturas históricas que nunca foram curadas e que agora encontraram o canal perfeito para se manifestar.
As comportas cheias materializam o que Freud, em Além do Princípio de Prazer (1920), qualifica como a força de Thanatos: a pulsão de morte que tensiona a matéria viva em direção ao estado inorgânico, ao nada. No plano íntimo, essa força irrompe nas violências sexuais, sexistas e homicidas. Já na esfera do coletivo, o impulso autodestrutivo se desvia para o exterior, convertendo-se em agressividade, guerra e um ódio ao semelhante que corrói os laços sociais. Diante dessa paradoxal tendência à destruição — que opera tanto na subjetividade quanto na política —, a psicanálise apresenta como solução um mais além da pulsão de morte, oferecendo uma aposta no que reorienta o sujeito na direção da vida.
Resta aos psicanalistas, portanto, traçar uma resistência à destruição em massa. A aposta da clínica é acolher a singularidade, o enigma e o indizível de cada sujeito; no encontro analítico, o ato busca transformar o impasse em invenção. Mas como transpor essa lógica para o campo da ação coletiva?
Em livro recente sobre a pulsão de morte, nosso colega François Ansermet sugere que a ação lacaniana deve visar, no âmbito coletivo, um mais-além da destruição — sem jamais desconhecer que tais manifestações se originam no sujeito. Nesse sentido, ousar interpretar as incidências da pulsão por meio dessa iniciativa Zadig (Linguagens da destruição: ameaça à democracia) já configura, por si só, um ato de resistência e um firme “não” às forças do declínio democrático.
Assumir a responsabilidade que vai do individual ao coletivo — e deste, ao singular do “um a um” — é o que propõe a Escola Brasileira de Psicanálise, através do CPCT-Minas: Centro Psicanalítico de Consulta e Tratamento, gratuito e de duração limitada para crianças e jovens massificados pelo diagnóstico de autismo. Resistir é confrontar a lógica totalitária que legitima a violência e alimenta a repressão cega contra os supostos perigosos de plantão, desvelando a farsa de uma linguagem cujo único intuito é impor a tirania ao sujeito.
Enfim, a aposta da psicanálise é a de que Eros e Thanatos possam se ligar no sentido da vida. Essa aposta implica partir do individual para fazer recuar a destrutividade no coletivo, transformar a destrutividade reorientando-a em direção à vida, através de uma invenção nova do cotidiano.
Assim, oferecemos uma chance para o sujeito sair da queixa contra o mundo, contra o destino e as ações alheias – posição de “bela alma” –, retificar-se e responsabilizar-se subjetivamente. Afinal, é por meio de suas escolhas inconscientes e repetições que o sujeito está implicado no seu próprio dizer e no modo como escolhe satisfazer-se. Nesse sentido, apenas seguimos a orientação de Lacan em sua máxima presente no texto A ciência e a verdade: “Por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis.” (Escritos, p. 873).
“O sujeito é responsável pela sua resposta e por aquilo que faz com o que o determina. É responsável por aquilo que se manifesta de seu inconsciente, para ir mais além da pulsão de morte. Abrir caminho para uma resposta singular, diferente e inesperada, respeitar o real em jogo é a via, na psicanálise, em direção a um mais além da pulsão de morte.
