Ram Mandil
Estamos aqui com um olho no que vai acontecer no domingo, e outro no que está em curso num mundo cada vez mais globalizado.
Gostaria de tomar como ponto de partida o alerta de Lacan a respeito de um incremento da lógica concentracionária como consequência da universalização produzida pela ciência e pelo capital. Quero destacar um aspecto dessa lógica concentracionária, que hoje não necessariamente toma a forma de cercas e arames farpados. Estou me referindo ao que Primo Levi escutou de um guarda do campo, em sua chegada a Auschwitz: “Aqui não tem porquê”. Podemos inferir que num mundo em prevalece a lógica concentracionária, a tendência é se confrontar a um real sem porquê, a um real que não responde à relação de causa e efeito. Em termos lacanianos, é o encontro com um real sem lei. Primeira pergunta: como lidar com esse “real sem lei”, como assumi-lo como fator da política e manejá-lo a partir dos seus semblantes?
Sobre a linguagem da destruição. Nossas referências da psicanálise, indicam aí a presença da pulsão de morte. Uma linguagem que visa não apenas a dissolução das instituições e dos princípios democráticos, mas que atinge todos os laços, inclusive os familiares e de amizade. No entanto, não podemos perder de vista que a pulsão de morte é um circuito de gozo, que retorna sobre o lugar de onde partiu. Michel Foucault já chamara a atenção para o circuito completo do projeto nazista: “Estado racista. Estado assassino. Estado suicida.” Nesse sentido, seria o caso de considerar de que modo a linguagem da destruição em marcha na política atual, irá retornar, de modo diruptivo, sobre o seu ponto de origem. Para ser mais direto: aqueles que votam, motivados pelo ódio e pelo espírito de destruição, não se dão conta de que, mais cedo ou mais tarde, eles estarão incluídos nessa própria destruição. Pergunta: haveria espaço para a política incidir sobre esse circuito? Sabemos que as tentativas de convencimento são inócuas a esse respeito. Seria cabível evocar aqui o poder da interpretação?
Outro ponto: é notório que o remanejamento atual dos grupos sociais dá lugar a um individualismo de massa inédito na civilização. Aqui prevalece o gozo da adição – a iteração de uma satisfação através do consumo desenfreado do mesmo – que se converte, como observa Jacques-Alain Miller, em modelo da vida cotidiana no século xxi. Pergunta: como considerar esse gozo da adição como um fator da política, uma vez tratar-se de uma exigência de satisfação que não se dialetiza, que não cede aos valores da vida em comum? De certo modo, foi a isso que assistimos no chamado “debate” da Band, nome irônico, num mundo em que o diálogo, em que o encontro com o Outro, vai cedendo lugar ao monólogo do gozo, naquilo que ele tem de mais obsceno.
Para finalizar: Jésus nos lembra da necessidade de preservação do “lugar vazio”, de onde provém “a indeterminação própria da democracia”. Não seria possível incluir em nossas leituras a respeito das ameaças à democracia, um certo “horror ao vazio”, apreendido como insuportável? Diante disso, para alguns, a resposta é a forclusão desse vazio. Para outros, trata-se de resgatar os antigos significantes mestres – Deus, Pátria, Família – que nos dão a ilusão de que esse vazio não existe. Para outros, trata-se de tamponar esse vazio por meio de um arsenal de leis. Nesse sentido, e como última pergunta, a se considerar o caráter ineliminável desse vazio, haveria um lugar para considerar o sinthoma como um fator incontornável da política?
