Vladimir Safatle[1]
Inicialmente, gostaria de agradecer à EBP por este convite, que me deixa muito feliz, para fazer parte desta mesa com pessoas que admiro tanto. A começar pelo professor Newton Bignotto, com quem já tive outras oportunidades de debater em outros momentos tensos da história brasileira; também Angelina Harari, com quem eu muito aprendi, em vários momentos da Escola; e Jésus Santiago, com quem tive várias ocasiões de discussão e de debate muito importantes.
Bem, eu havia entendido que esta seria uma discussão um pouco mais livre, então não fiz um texto, mas peço desculpas porque, nestas últimas duas semanas, tenho feito uma atividade por dia, pelo menos, desde que nós soubemos dos resultados do primeiro turno. Então, chega um momento em que é até difícil conseguir organizar algo de maneira um pouco mais sistemática.
No entanto, quando me foi feito este convite, o aceitei prontamente, por várias razões. A primeira delas é porque acho que, digamos, a função dos psicanalistas e das psicanalistas nesses momentos terríveis da história brasileira, que têm ocorrido desde 2015, tem sido uma função, eu diria, em larga medida exemplar.
Os psicanalistas tomaram a frente em vários momentos, percebendo os riscos que implicavam a ascensão das novas formas de autoritarismo, a ascensão da extrema direita. Eu não teria nenhum problema em falar de maneira analítica: trata-se mesmo de uma ascensão de um fascismo global, em cujo processo o Brasil é um espaço absolutamente decisivo.
Então, é importante também saudar essa consciência esclarecida dos setores organizados da psicanálise em relação aos desafios que encontramos. Acho importante dizer isso, e começar um pouco por aqui, porque essa, infelizmente, não foi a base da história integral da psicanálise durante muitos momentos de tensão e de ascensão do autoritarismo.
Costumo dizer que a psicanálise é permeada, atravessada, por uma luta de classes. Nessa luta de classes há aqueles, como os que estão aqui agora, que percebem qual é exatamente nossa tarefa no momento – a de insistir na conscientização da sociedade em relação aos perigos que a esperam –, e há aqueles que, infelizmente, têm uma posição muito mais dúbia, muito mais, digamos, adesista aos momentos autoritários do Brasil. Vimos como, nos anos 70, a sociedade, o corpo de psicanalistas, se dividiu ao meio – até porque boa parte dos psicanalistas tiveram adesão ao regime militar e, não por outra razão, a psicanálise cresce no regime militar. Entretanto, outros tiveram a consciência clara do seu papel.
Acho isso importante, porque uma teoria verdadeira não necessariamente tem, como consequências práticas, políticas corretas. Muitas vezes, ela pode se perder dentro desse processo. A gente conhece isso não só na psicanálise, mas em várias outras orientações de pensamento, de prática e de clínica.
Dito isso, acredito que, sim, uma reflexão psicanalítica é amplamente necessária nesse momento. A psicanálise tem alguma coisa a nos oferecer de fundamental para a compreensão deste momento e de seus desafios. Tentei desenvolver algo nesse sentido através de um livro que se chama Ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, e queria retomar um pouco dessas considerações aqui, porque acho que, como todos nós sabemos – eu começaria um pouco por esse ponto –, utilizar o termo “fascismo” para dizer o que nos espera a partir do dia 26 de outubro, caso efetivamente as forças progressistas que sustentam esse país percam a eleição, não é nenhum exercício retórico, não é nenhum exercício, digamos, de ampliação superlativa para tentar mobilizar, a partir de palavras de ordem, pessoas, grupos, populações e territórios.
Eu insistiria que uma das características fundamentais do pensamento crítico (e acho que isso vale para todos nós, independentemente da área na qual atuamos, que a psicanálise é um setor estruturante do pensamento crítico do século XX e do século XXI e continuará sendo assim por muito tempo) é entender que as ruas pensam. As ruas são uma inteligência coletiva de produção de conceitos, de recuperação de conceitos e de produção de experiências de pensamento. As ruas não simplesmente reagem de forma, entre muitas aspas, emotiva, elas não reagem de forma, entre muitas aspas, irracional. Não, elas pensam coletivamente a partir da urgência e da imediaticidade dos problemas que são colocados à sociedade.
Então, se ouvimos nas ruas no mundo inteiro – e veja, no dia de hoje, no exato dia de hoje, 20 de outubro de 2026 –, podemos falar isso de uma forma muito segura, porque temos manifestações, temos populações nas ruas em vários países do mundo, mostrando sua insatisfação, mostrando seu descontentamento com a ordem econômica e social, seja aqui no Brasil, seja na França, seja na Espanha, seja na Alemanha, dentro de um processo global cada vez mais evidente. E, vejam que interessante, todas essas ruas não têm medo algum de falar claramente que estamos diante de uma ascensão fascista.
Acho que é uma função fundamental do pensamento crítico não se pôr na arrogância acadêmica de achar que é capaz de encontrar os conceitos mais adequados do que aqueles conceitos que as pessoas que estão na frente das lutas estão utilizando, mas, ao contrário, respeitar essa escolha, entender que ela tem um sentido e tentar analisar analiticamente por que que esse sentido está sendo posto nesse momento.
E é ainda muito mais fundamental falar algo dessa natureza em um país como o Brasil, porque é sempre bom lembrarmos do que é efetivamente a nossa história. E essa história saiu um pouco de cena com os sistemas de crenças, de pactos e de conciliações que poderiam ser possíveis dentro do processo de transição democrática, com o fim da ditadura militar e a Constituição da Nova República, e com essa ideia, que foi paulatinamente sendo consolidada, de que a política seria, a partir de então, uma conquista do centro democrático. Gostaria de lembrar que, ao contrário, o Brasil é o país que teve o maior partido fascista fora da Europa: a Aliança Integralista Nacional teve 1 milhão e 200 mil membros nos anos 30.
Qualquer pessoa nesta sala, ou dentro desta rede, que procurar na sua árvore genealógica irá encontrar um integralista na sua família. Eu sei onde eles estão, por isso eu mesmo não procuro, acho mais seguro, e já tenho muito desgosto em relação a reuniões familiares. Mas, de toda forma, digo isso não por um caráter meramente anedótico, mas simplesmente para mostrar a capilaridade disso entre nós. E, claro, essas pessoas, esses 1 milhão e 200 mil membros, não desapareceram no ar depois dos anos 30, eles continuaram passando seus valores por gerações. Por exemplo quando, na ditadura militar, houve um golpe dentro do golpe, quando a linha dura toma a frente e, no governo Costa e Silva, Pedro Aleixo, que era seu vice-presidente, não pôde tomar posse e é instaurada ali uma junta militar com três militares. Dois desses três militares eram integralistas: Márcio Mello e Augusto Rademaker – e este último se torna vice-presidente do governo Geisel.
Nós estamos falando de um país, como o Brasil, no qual, por exemplo, no dia 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, quando o senhor Jair Bolsonaro tenta colocar seus populares para pressionar o Supremo Tribunal Federal, ele é obrigado pelo STF a fazer uma carta à nação no dia seguinte, dizendo algo como: “desculpem aí, eu nunca quis dar um golpe”. Ele assina a carta com o lema “Deus, Pátria e Família”. É a primeira vez na história brasileira que um presidente assinava uma carta à nação com um lema integralista.
Tudo isso não é um anedotário, e há aqui uma questão importante que diz respeito, inclusive, a todos nós, que é a de se perguntar por que que não levamos a sério nos nossos estudos sobre o Brasil, nossa reflexão sobre o Brasil, e o fato de que o fascismo nacional era um eixo constituinte da nossa sociedade que, em situações de crise, tende a emergir com força, como vemos agora. E, digo mais: não é um acaso que seja exatamente em um país como o Brasil que esse tipo de reflexão tenha saído de cena.
Afinal de contas, uma base fundamental do fascismo é o constituinte da nossa história, e eu insistiria numa tese que não é nova, que não é minha, mas é uma tese que já tem toda uma história por trás: a ideia de que o colonialismo fornece todas as tecnologias de violência que, depois, vão ser generalizadas no interior das dinâmicas do fascismo.
Não há nenhuma dessas tecnologias de violência que não tenham ocorrido em espaço colonial inicialmente: campos de concentração, campos de extermínio, guerras de raça, lógicas supremacistas, massacres administrativos. Todas essas tecnologias de violência podem ser encontradas em países como a Namíbia, a África do Sul, na colonização inglesa, no mundo árabe, na colonização francesa na Argélia, há em todas essas ocorrências o uso sistemático de torturas e de desaparecimento forçado.
Tudo isso mostra uma coisa absolutamente central, tanto que há uma frase muito importante, que me parece ser do Aimé Césaire em um belíssimo texto, Discurso sobre o colonialismo, em que ele lembra: “o problema do fascismo não foi o que eles fizeram, foi o crime contra a humanidade, foi o crime contra o homem branco”. Isto é, o fato de terem aplicado no cerne da metrópole, no espaço metropolitano, aquilo que eles só faziam contra os coolies da Índia, contra os negros da África, contra os árabes da Argélia.
Acho que isso é um dado absolutamente importante, e não sou daqueles que acreditam numa espécie de fascismo estrutural, de fascismo histórico como elemento único dentro de um processo histórico específico, mas acho que o fascismo é a cronificação de uma série de violências sociais que constituem formas sociais. Ele faz parte de uma série, ele não é um fato instaurador, ele não instaura um fato novo, ele simplesmente cronifica um processo.
Peguemos por exemplo um caso clássico, um genocídio, que, de todos os crimes, é o mais brutal. Se todos vocês quiserem fazer uma pesquisa, façam uma pesquisa sobre o que foi o genocídio do Congo, feito pelo senhor Leopoldo II, rei dos belgas – e, na verdade, o Congo era quase uma propriedade privada do rei da Bélgica. Se procurarem nos estudos sobre o genocídio, vocês encontrarão, por exemplo, colocações mais ou menos da seguinte natureza: “foram mortas na ocasião entre 2 e 10 milhões de pessoas”.
Quando ouvi esses pormenores pela primeira vez, levei um susto, porque pensei: “não, pera aí, deve ter algum erro, deixa eu ir atrás de outros números”. Mas todos eles eram mais ou menos a mesma coisa. O que eu me perguntava era o seguinte: “como assim ‘entre 2 e 10 milhões de pessoas’?” Porque eu posso entender como sendo entre 2 e 2 milhões e meio, por exemplo. Não se consegue estabelecer muito claramente os números, há algumas regiões cujos dados são inseguros… Agora, “entre 2 e 10”, isso só diz uma coisa: pouco importa o número, isso não faz a menor diferença. Ninguém de fato quer estabelecer alguma coisa, como diz o Joseph Conrad, no Coração das trevas, isso não tem a menor importância.
E acho que esse tipo de indiferença constitui um elemento estrutural da subjetividade liberal, porque não existe liberalismo sem colonialismo, não existe liberalismo sem a obrigação da dessensibilização e da indiferença como afeto político central. Como o fato de que, efetivamente, é necessário você se dessensibilizar do destino da violência que é marca de certos territórios, marca de certas populações. Todos nós conhecemos o caráter… Acho importante esse uso de um conceito psicanalítico tão decisivo quanto esse modo de defesa que nós conhecemos, a dessensibilização, o deslocamento entre afetos e representação. Acho que é um elemento importante para entender como que se organiza essa subjetividade.
Só que aí vem um outro elemento, que é onde eu queria chegar: a meu ver, esse tipo de articulação estrutural, esse tipo de recolocação do fascismo em uma série que tem na violência colonial a sua base, permite pensar o Brasil como nada mais, nada menos, do que o laboratório desse processo, porque o Brasil, afinal de contas, é o maior experimento necropolítico da história.
Eu lembraria a vocês que 35% de todas as pessoas que foram escravizadas na África vieram para o Brasil. E, como dizia o bom e velho Celso Furtado, o Brasil não nasceu como uma sociedade, ele nasceu como um experimento econômico. Essa é a sua base, é o seu DNA. É o latifúndio escravagista primário exportador, que impõe uma divisão entre dois tipos de sujeitos: aqueles que serão reconhecidos como pessoas – e que terão então direito à proteção, a sua morte tem direito à comoção, tem direito ao luto, tem direito ao dolo – e aqueles que irão cair à condição de coisa, até o ponto da escravidão, que, é sempre bom lembrar, nunca desapareceu do nosso território, ela está aí, até hoje. A todo momento você tem a justiça e os oficiais de justiça que têm que livrar pessoas de situações, entre aspas, análogas à escravidão. E isso em todos os espaços de produção, seja na indústria têxtil, seja no agronegócio, espaços fundamentais da produção nacional. Então, o trabalho escravo não desapareceu do capitalismo, é sempre bom lembrar.
Então, essas pessoas que caem à condição de coisa não têm, e nunca tiveram, direito ao Estado protetor. Elas têm direito a um Estado predador, um Estado que vê as mortes dessas pessoas como mortes matáveis, de pessoas matáveis, sem dolo, sem comoção, sem nada. Todos nós conhecemos isso muito bem, basta nos lembrarmos o que aconteceu em setembro do ano passado, certo? 122 pessoas mortas numa batida policial no Complexo do Alemão. Essas 122 pessoas até hoje não têm nome, não têm história, ninguém conhece as suas famílias, e o que aconteceu devido à morte delas não comoveu absolutamente ninguém, porque é como você perder uma coisa. É um quantificador, como quando você perde uma coisa.
A mesma coisa com relação às 400 pessoas mortas na última intervenção militar em Gaza, mesma coisa. É o mesmo processo de dessensibilização que nós vemos como um elemento constituinte de uma certa forma cada vez mais hegemônica de subjetividade. Por causa disso, minha tendência atual é dizer mais ou menos o seguinte: nós estamos lutando contra o pior, mas nós não estamos lutando para defender alguma coisa que já existiu, porque eu não acredito que tenha existido alguma coisa como uma democracia liberal. Essas democracias liberais nada mais eram do que fascismos restritos.
Fascismos restritos são processos que submetem populações em certos territórios muito específicos à precarização estruturante da vida. Eu moro num bairro chamado Higienópolis, e eu sei que a polícia não vai bater na minha porta às 5:00 da manhã sem mandado, me colocando uma arma na cabeça, uma metralhadora na cabeça e colocando minha vida em risco. Se ela fizer isso, vocês vão ver no Jornal Nacional no dia seguinte. Agora, eu sei que, a 15 km daqui, ela faz isso todos os dias, e que esse é um procedimento absolutamente normal. Para essas pessoas, para pessoas que habitam esse território, falar em democracia é uma imoralidade. É absolutamente imoral, porque é completamente irreal.
E eu insisto nisso por quê? Porque o que faz a extrema direita, o que faz o fascismo nacional em uma situação como essa? Ele se serve desse processo, que já é constituinte da nossa subjetividade, de dessensibilização estrutural no interior do corpo social. E, se me permitem, eu utilizaria esse conceito de uma maneira que não é exatamente a utilizada por certos teóricos da democracia. Por exemplo, Claude Lefort utilizava o conceito de corpo social como se fosse a expressão máxima de uma sociedade totalitária – sociedade que se pensa como um corpo, na qual partes extra partes, isto é, em que cada parte tem a sua função. Só que acho que ele esqueceu um pouco que a metáfora do corpo social não é só essa figura egocrata, hobbesiana, do Leviatã. Ela também está em Espinosa, e está em Platão de uma maneira muito interessante, por exemplo, quando ele diz o seguinte: “a sociedade é um corpo, porque se acontecer algo no pé, a mão sente; se acontece algo na perna, o coração sente”. Ou seja, não é possível indiferença no interior do corpo social. A relação é uma relação de solidariedade profunda. E é a degradação dessa possibilidade de solidariedade que fornece ao fascismo uma das suas bases.
Só que aí eu queria chegar num ponto que é o seguinte: em uma situação como a nossa, o fascismo se torna uma opção racional. E, quando uso o termo “fascismo” nesse contexto, sei que muitas pessoas falam: “mas como é que você vai falar que 50% da população brasileira é fascista? E qual é a função política disso?”. Isso, de uma certa maneira, nos afasta dessas pessoas. Eu queria insistir: não se trata, em hipótese alguma, caso você faça uma escolha eleitoral, de indicar que essa escolha eleitoral é baseada numa identificação forte com o seu candidato, com o seu partido ou qualquer coisa parecida.
Veja, eu não sou petista, mas eu voto no PT há 20 anos, porque eu faço um cálculo: dada uma situação, dada uma circunstância X, eu não vou conseguir exatamente o que eu queria, mas eu vou fazer uma escolha pelo mal menor, por aquilo que consegue avançar em algum ponto ou outro, algo que, para mim, é importante. Por que não ter uma generosidade e fazer isso também com o outro lado? Ninguém está falando que 50% da população é fascista.
E acho que existe um problema que talvez seja pior: 50% da população admite como racional escolher um fascista, mesmo não necessariamente se identificando com ele, mesmo não necessariamente assumindo todas as suas proposições. E isso nos coloca uma questão importante: qual é o cálculo racional por trás disso? Porque temos uma tendência, que não me parece uma boa tendência, de, em situações como essa, psicologizar tais escolhas, como se elas só fossem exemplos de regressões estruturais da sociedade.
Regressões, então, que fazem com que essas pessoas ou sejam marcadas por um déficit cognitivo, ou sejam, de fato, tontas, burras, acreditam em fake news, são negacionistas, não acreditam na ciência, ou são marcadas por um déficit moral, pelo ódio, pelo discurso do ódio… E eu sempre achei graça nisso, porque, bem, eu não sei de onde veio essa ideia de que o ódio não é uma força política fundamental. Como dizia o Walter Benjamin, um dos problemas fundamentais das lutas operárias naquele momento é o fato de que a social-democracia tinha esquecido a raiva secular da classe trabalhadora que foi colocada em uma posição de espoliação contínua, que viu gerações e gerações das suas famílias serem destroçadas e destruídas pelas impossibilidades estruturais que elas tinham de conseguir aceder a uma vida melhor.
Eu só insistiria dizendo que, nesse contexto, o cálculo racional que essas pessoas fazem é: não há mais sociedade para todo mundo. Não tendo mais sociedade para todo mundo, então é importante saber como é que nós vamos fazer essa partilha, quem vai ser salvo e quem vai ser deixado de lado. E que as pessoas salvas sejam então as pessoas que estão na minha mesma comunidade de fé, as pessoas que se submetem ao mesmo princípio econômico do empreendedorismo, as pessoas da preferência nacional contra os imigrantes. É sempre uma questão de partilha que é colocada como um cálculo racional catastrófico, porém racional.
Era isso. Muito obrigado!
