Henri Kaufmanner
Nos últimos dias, após o primeiro turno das eleições, chamou minha atenção, escutando meus analisantes, a presença nas falas de duas referências que apareceram de modo repetitivo, como efeito das votações do primeiro turno. Eu diria mesmo que foram acontecimentos de corpo. Refiro-me ao susto que vários mencionaram ter sentido assim como a experiência de viver numa distopia.
Fui tomado pela convicção de que haveria, em nossa experiência politica atual, o reinado do torpor. O primeiro turno e seus resultados teriam provocado, de algum modo, algum despertar?
Como pensar esses acontecimentos?
Lacan discorda do mito da horda primitiva criado por Freud. A ideia de que o pai tirânico teria acesso a todas as mulheres desconsidera que essas também teriam seus desejos, seu gozo. Por que não se interessariam por outros rapazes? Reconheçamos que essa ideia freudiana, inclusive, ganha força hoje em dia com os avanços fundamentalistas. Por que as “mulheres primevas” se reduziriam ao pai, o velho orangotango, como o chama Lacan este que ultimamente também insiste em retornar. Lacan ressalta que a energia que gastamos para sermos todos irmãos apenas confirma que não o somos. Na verdade, somente haveria uma origem para a fraternidade humana: a segregação. “Na sociedade, tudo o que existe se baseia na segregação, e a fraternidade em primeiro lugar.” [1]
Isso, me parece, vai na direção do que sustenta Safatle em seu livro quando propõe a presença constante de um “Fascismo restrito”.
O discurso do capitalismo que domina nosso mundo rechaça o discurso do Mestre, que sabemos bem é discurso do inconsciente. Este como sabemos, não opera sem o recalque ,é excluído da realidade. No capitalismo e seu discurso, por outro lado, o fantasma passa a se apresentar na realidade. A conjunção entre S e a, entre o Sujeito e o objeto se faz sem a disjunção. Dessa modo, o mais de gozar está por todos os lados e acaba sendo a própria sustentação dessa realidade. As redes sociais, os algoritmos estão ai para nos corroborar. A realidade hoje acontece numa virtualidade muito além do que a dimensão virtual que a realidade do inconsciente nos faria supor. E se não há inconsciente, não há política, só a dominância do gozo sem o obstáculo fálico, um gozo não todo fora do registro da castração.
Há um excedente de gozo que se produz que não há mais como ser cifrado. Esse excedente pode se revelar como nos acostumamos a ver nas toxicomanias, mas também como uma realidade onírica, fora do campo da consciência e da representação. Ali convivem ideias como aquelas que Bolsonarismo dissemina, e práticas que, violentas ou não, revelam que estamos fora do registro da lei da castração, numa não contingência.
A linguagem da destruição, arrisco dizer, é um simulacro da linguagem que se sustenta na oferta de gozo, ampliando a impossibilidade de enlaçamento desse excesso de gozo a um arranjo simbólico, acentuando o declínio do semblante. No discurso do capitalismo S1 e S2 se holofraseam. O saber como efeito da articulação significante, desaparece, assim como qualquer verdade. A vida acontecendo nesse desdobramento da realidade, nessa outra cena, onírica, provoca o torpor. Vem daí a sensação de experimentarmos uma distopia.
O que resta é o imperativo de gozo, ao qual , todos nós somos em menor ou maior grau aditos. Pergunto-me se esse breve despertar, o susto que a partir dele acontece, possa ter sido um desvelar do quantum de estrago de nossa adição. Quem sabe as novidades que surgiram nesse segundo turno possam abrir espaço para que algo do desejo contamine as redes. Confesso que ainda não tenho elaboração para ler como isso acontece, Mas espero , espero não , desejo muito, que tenha consequências
