“À medida, de fato, que a comunidade analítica mais deixa dissipar-se a inspiração de Freud, o que, senão a letra de sua doutrina, continuaria a fazê-la sustentar-se num corpo?”[1]
Essa é uma frase que durante muito tempo li como uma observação sobre as instituições psicanalíticas. Foi preciso voltar a ela outras vezes para perceber que também dizia respeito ao modo como cada um se deixa (de)formar. A letra permanece onde sempre esteve escrita há décadas. O que muda é o leitor.
É interessante a experiência de estudar psicanálise numa formação que é infinita: o texto permanece exterior, pertence a outro tempo, a outra circunstância, mas, em determinado momento, toca um ponto do nosso percurso e passa a produzir efeitos de formação. Os efeitos não necessariamente passam pela via da compreensão, mas porque alguma pergunta que antes não existia começa a insistir. A letra, neste caso, ainda que êxtima, quando toca algo do real da formação, pode tornar-se íntima.
O que da letra dos Escritos, após 60 anos, continuaria a fazê-la sustentar-se num corpo?
Porque seguem encontrando leitores dispostos a lhes oferecer algo de si? A cada leitura, um novo corpo lhe empresta voz; e é assim que Uma Escola continua encontrando, na letra, uma possibilidade de manter viva a sua ética que preza e aposta no Um de cada um.
Verônica Paola Montenegro (Participante da EBP Seção Sul)
