Psicanálise, a peste. Ainda?
Eliane Costa Dias (EBP/AMP)
Em 1953, no texto que pode ser considerado a pedra angular de seu ensino, Lacan enuncia uma diretriz fundamental à prática da psicanálise: “que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”. Esse aforismo lacaniano ecoa e ressoa no cotidiano de nossa comunidade analítica. Mas, frequentemente, elidimos a continuidade da frase:
Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico. Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas.[1]
Estar à altura da subjetividade da época implica saber interpretar, saber ler os fenômenos e os discursos dos tempos em que vivemos.
A disseminação da peste introduzida por Freud no início do século XX alterou e se incorporou ao modo de pensar e às relações do homem contemporâneo. Em que reside a dificuldade da psicanálise hoje?
Na atualidade, a “evaporação do pai”[2] resulta em um empuxo ao gozo – um gozo muito mais à deriva, uma vez que a referência fálica também se encontra abalada com a queda dos ideais e dos semblantes.
Tal empuxo ao excesso e ao ilimitado pode se revelar em soluções impositivas e tirânicas, segundo o imperativo insaciável do Supereu, resultando em um incremento da segregação, da violência, das passagens ao ato, da solidão, da desconexão do laço social e de formas extremas de autoabandono.
Como afirma Miller no curso O lugar e o laço[3], a poderosa aliança do discurso capitalista com as tecnociências modificou o parceiro-mundo da psicanálise. Um parceiro-mundo globalizado, tecnológico e virtualizado que já não rechaça a psicanálise, talvez a incorpore, num discurso que reconhece o desejo e o converte em demanda que gera oferta e mercado – um discurso que faz do gozo um direito e subverte perversamente o uso da palavra que a psicanálise introduz, mercantilizando a prática da escuta.
Qual a possibilidade de subversão da psicanálise em um tempo em que prevalece um utilitarismo do gozo aliado à degradação da palavra e à superinflação da imagem?
Se tomamos a orientação lacaniana de que “o inconsciente é a política”[4], cabe à psicanálise, no um a um de sua prática clínica e em seu discurso na cultura, seguir sustentando uma ética do bem-dizer e do saber-fazer com o sintoma, na aposta de salvaguardar a singularidade como o que opõe resistência à alienação do sujeito e à morte do desejo.
Nos termos de Laurent: “O que o discurso analítico tem a dizer é que existe uma discrepância irreversível entre a busca de satisfação e a relação com um objeto para sempre perdido. E esse é o escândalo do discurso analítico”[5]. Estar à altura da subjetividade de nossa época, portanto, exige dos psicanalistas o desejo decidido de sustentar o preço desse escândalo.
