Paula Nocquet
(Participante da EBP Seção Sul)
O seminário proposto pela diretoria da EBP-Seção Sul, chamado A voz como objeto: sintoma, interpretação e escrita, com Leonardo Scofield e Flávia Cera, começou com uma pergunta sobre o que é uma interpretação, sustentando o desejo de saber em “uma tentativa de dar uma borda a esse significante que nos põe a trabalho”, nas palavras de Leonardo.
Na reunião de 17 de junho, Flavia parte de implicações clínicas e retoma o Escrito na fala, texto de Miller que acompanha o seminário. A questão da interpretação aparece ali articulada à leitura, à escrita e à defasagem. Flávia diz “em psicanálise, há sempre uma não correspondência entre o que se diz e o que se lê, entre o que se quer dizer e o que se diz”. É nessa defasagem que a interpretação encontra seu lugar. Mas faz um apontamento essencial; não se trata de suturar, restabelecer uma correspondência ou completar um sentido que estaria faltando. Ao contrário, a interpretação opera justamente sobre esse descompasso.
Daí a importância, na clínica, de localizar como cada um interpretou aquilo que escutou, aquilo que foi dito. Como o modo de gozo de cada um passa pela interpretação que o inconsciente operou em sua vida.
É então que a escrita introduz uma torção. A escrita, recorda Flávia, não é algo que se lê. E retorna à frase de Lacan: um escrito finalmente não é para ler. Os Escritos de Lacan para não serem lidos. Essa frase sempre me pareceu tão Lacan. O que chamamos de ler?
Miller, a propósito dos trinta anos da publicação dos Escritos, conta que, em Lacan, tornou-se cada vez mais presente a pergunta, quem vai me interpretar?[1]. Também descreve o estilo de escrita de Lacan como um combate com aquilo que escapa. Há, em seu estilo, dois movimentos: circunscrever o objeto, dar voltas em torno dele; e, depois, “perfurá-lo com uma pluma-espada”. O leitor muitas vezes não sabe o que foi perfurado — e é justamente por isso que volta, procura, interpreta. O estilo de Lacan, diz Miller, obriga sempre a interpretar.
Talvez ler Lacan exija colocar algo de si no esforço da leitura. Voltar à frase, sublinhar, deter-se, assumir o incômodo de não a compreender facilmente, não a reduzir a um sentido, fazê-la trabalhar com os colegas.
Retomando a conversação final do seminário, Flávia acrescenta, recordando Lacan, que “a interpretação é ler de outra maneira, mas, sempre esquecemos da frase que vem depois: aquela que aponta para o S(Ⱥ)”. Os Escritos para não serem lidos nos convocam a ler de outra maneira. Insistir na letra, suportar o que não se deixa ler de imediato, colocar algo de si em jogo, para que, entre o que se lê e o que escapa, algo possa ressoar.
[1] Miller, Jacques-Alain. A treinta años de la publicación de los Escritos en Biblioteca Nacional Argentina. Inédito (tradução livre).
