Os Escritos: 60 anos!
Paula Borsoi (EBP/AMP)
Quando os editores da revista Correio Express me convidaram para escrever para a rubrica Zeitgeist a fim de celebrar a atualidade dos Escritos – que foi lançado há 60 anos -, revisitando seu rigor e vivacidade, encarei com alegria e também como um desafio.
Vou retomar um pequeno parágrafo do argumento enviado:
Não há como negar a passagem do tempo, as mudanças na cultura e na subjetividade. No entanto, é a porção do incompreendido que resta como motor de interesse e mistério. Talvez esteja aí a proposta de Lacan que seus Escritos não eram para serem compreendidos mas para serem lidos. E que para serem lidos era preciso dar algo de si. O que isso quer dizer?
Não tem como ser de outro modo. Essa exigência de dar de si, ou seja, que para ganhar é preciso perder, às vezes, tempo, outras vezes, ter disponibilidade para suportar essa não compreensão imediata, produz naqueles que fazem essa leitura uma certa angústia. Esse ponto está diretamente ligado à relação do sujeito com o saber. Não o saber sabido, que qualquer um pode ter acesso, mas aquele que só encontramos na análise, aquele que produzimos em análise: o saber inconsciente, que articula sintoma e gozo.
O principal foi o que ele assinalou: é preciso ler, estudar e suportar a não compreensão integral. Causa surpresa um efeito de saber que não é linear e não tem continuidade pelo acúmulo da aquisição de conhecimentos. Um saber que, muitas vezes, escapa do sentido que é esperado. Quando obtemos algum ganho de saber, ele advém da leitura possível que o sintoma de cada um permite. Em que ponto estamos no trabalho de análise, na clínica e na Escola, nessa formação que é permanente, é algo que permeia a leitura dos Escritos e as consequências que se retiram desse estudo. A compreensão, quando advém, se refere a uma mudança no estatuto do saber. Saber esse que articula um novo estatuto dado a esta dimensão pela experiência analítica.
Os textos desse volume reúnem, sem nenhuma linearidade, um material inestimável para formação do analista.
Por isso, é sempre uma leitura instigante. Nos textos dos Escritos, Lacan tem várias “discussões” com seus interlocutores da época, os pós-freudianos, nos pontos que ele chamou da retomada do gume cortante da psicanálise que Freud deixou, e que, na leitura feita por ele, sofreu um desvio. Esses desvios teóricos resultaram em uma clínica que fazia uma adaptação do eu às exigências do mestre.
O texto dos Escritos, a meu ver, se mantém atual, apesar de Lacan ter avançado em algumas questões nos Seminários posteriores, porque a leitura de Lacan sobre a época em que viveu, sempre teve uma abertura para rever, repensar, discutir com ele mesmo, e alguns outros pontos em que precisava avançar.
O que faz com que um texto psicanalítico tal como os Escritos se mantenha atual?
O estilo de Lacan não faz dos Escritos uma obra datada. A cada leitura, se faz sempre uma releitura, aberta a novos achados. Os conceitos, não se fecham neles mesmos, não são a última definição. A cada vez que lemos um texto avançamos, na melhor das hipóteses, um pouco daquilo que apreendemos anteriormente. Outras vezes, aquilo que achamos ter apreendido se esvai como água entre os dedos. Essa dificuldade faz com que muitos desistam de sua leitura, pois vivemos num mundo imediatista, que quer resultados rápidos e onde a sensação de se sentir fracassado em relação à compreensão do texto, precisa ser atravessada. Aparece então um paradoxo: quando insistimos, sem desistir, aparece algo de um efeito de luz, algumas passagens ficam claras para no momento seguinte desaparecer. Tal como quando nos deparamos com o inconsciente na clínica, na vida e na análise. Esse efeito é uma contribuição valiosa de Lacan e de seus Escritos para os nossos tempos. A meu ver, esse é o mistério e o interesse que fazem com que o texto dos Escritos se mantenha vivo!
