O voo da letra
Gresiela Nunes da Rosa (EBP/AMP)
No Seminário 14, Lacan nos faz saber que adora perguntas idiotas. Disse que recebeu uma a respeito de seu livro Escritos, que fora lançado no ano em que proferia aquele seminário: “qual é a ligação entre os seus escritos?”. Surpreendido com a pergunta, diz que nunca havia lhe ocorrido tal questão e, em continuidade, disse: “é a identidade do sujeito, mais precisamente essa coisa da ordem disso que se chama de identidade, à qual cada um tem o direito de se referir para aplicar a si mesmo”.[1]
Identidade do sujeito é uma expressão perigosa, sobretudo nos dias atuais em que o tema da identidade pode nos levar a uma exacerbação do eu. Mas, se Lacan está ali falando de identidade do sujeito, trata-se de não confundir com a identidade do eu, ou do homem.
No texto de abertura de Escritos[2], Lacan nos conta que o jovem Hérault de Séchelles vai visitar o conde de Buffon, o grande prosador francês que, na ocasião de sua entrada na Académie Française, disse a tal frase: “o estilo é o próprio homem”[3]. Queria conhecer o conde, observar seus hábitos, ver seus objetos, ouvi-lo, interrogá-lo sobre a sua maneira de trabalhar e de escrever. Ele faz um tipo de reportagem muito contemporânea. Não estamos vivendo nos tempos atuais essa entrada em cena do eu do autor como peça importante do texto publicado?
Mas eis que Lacan lê Hérault de Séchelles tentando ler Buffon e diz: “ali saboreamos um outro estilo […] em um contexto de impertinência no qual o anfitrião nada fica a dever a seu visitante.” Em seu texto, Hérault de Séchelles transforma Buffon em um personagem, e o homem que declarou “o estilo é o próprio homem” passa a ser retratado pelo estilo de outro homem. Se a lógica parecia ser: quer conhecer o estilo? Então vá conhecer o homem, Lacan subverte a fórmula e pergunta: “O estilo é o homem […] a quem nos endereçamos?”.
Lacan introduz, então, o destinatário no jogo. Mas de que outro se trata, ou o que do outro está em jogo neste endereçamento? O estilo, então, não revela a interioridade do autor, se constitui como endereçamento e envolve o objeto que está em jogo neste “entre”. Diz Lacan: “é o objeto que responde à pergunta sobre o estilo que formulamos logo de saída. A esse lugar que, para Buffon, era marcado pelo homem, chamamos de queda desse objeto, reveladora por isolá-lo, ao mesmo tempo, como causa de desejo em que o sujeito se eclipsa e como suporte do sujeito entre verdade e saber.”[4]
Poderíamos então pensar que estilo, a partir destas elaborações lacanianas, é um dos nomes para a identidade do sujeito? Onde, então, encontrá-lo? No outro a quem nos endereçamos? Ou naquilo que cai? Naquilo que produz uma espécie de identificação às avessas? Nesta série enunciada por Lacan, temos uma espécie de mise en abyme topológica: Buffon escreve um texto que Hérault de Séchelles lê; Séchelles escreve sobre Buffon e é lido por Lacan; Lacan os lê e escreve algo que, lido por mim, me leva novamente a Buffon e a Séchelles e, agora, a um possível leitor. O que se movimenta neste circuito não é o idêntico, é aquilo que não passa inteiramente de um a outro, um resto, uma opacidade, um vazio. Resta saber se esse vazio pode causar como consequência um leitor que precise colocar algo de si, sua identidade de sujeito, seu estilo, sua letra.
