“Sua coloração sexual, tão formalmente afirmada por Freud como inscrita no que há de mais íntimo em sua natureza, é cor-de-vazio: suspensa na luz de uma hiância”[1].
Entre as frases dos Escritos que li e reli, esta me captura: o que seria a “coloração sexual” afirmada por Freud e, mais ainda, de que cor se trata a “cor-de-vazio” que Lacan escreve para abordar essa coloração sexual?
Para Freud, a libido é a energia das pulsões sexuais. Lacan, porém, desloca essa concepção, o sexual não é um dado biológico nem substância, mas um modo de organização do desejo em torno de uma falta constitutiva. A sexualidade colore a experiência psíquica, atravessa os investimentos da libido e organiza o desejo, mas não constitui uma substância identificável.
“Cor-de-vazio” é uma expressão paradoxal: o vazio não possui cor. Justamente por isso, a metáfora indica que o sexual marca um vazio estrutural, não aquilo que preenche o sujeito, mas uma ausência impossível de eliminar.
A entrada na linguagem implica uma perda irrecuperável. Representado por significantes, o sujeito nunca coincide plenamente consigo mesmo: resta algo que escapa à simbolização. É em torno desse resto que se organiza o desejo. Assim, o sexual não se origina no organismo, mas na estrutura simbólica, a libido insiste em torno do vazio sem jamais suprimi-lo. A “cor” da sexualidade é, portanto, a marca de uma ausência constitutiva, e é exatamente essa ausência que torna possível o desejo humano.
Milena Vicari Crastelo (EBP/AMP)
