Lacan revisitado
Lídia Pessoa (EBP/AMP)
Na trajetória do ensino de Jacques Lacan, os Escritos são um marco fundamental. Jacques-Alain Miller defende a tese de que se deve ler Lacan na dialética entre Escritos e Seminários. Das enunciações orais, lugar da invenção, algo vai se sedimentando e ao escrever escolhe, seleciona e fixa sua doutrina[1].
O seminário, livro 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise foi publicado antes do livro 1 – os escritos técnicos de Freud. Miller, porém, faz referência a dois seminários ministrados antes do Seminário 1, em 1952-1953, sobre o homem dos Lobos e o seminário que abordou o caso Dora, deste restando apenas Intervenção sobre a transferência incluído em Escritos[2].
Em 1963, Lacan foi “excomungado” pela Associação Psicanalítica Internacional, sem possibilidade de retorno a exercer a formação de analistas. Na abertura do seminário – livro 11, Lacan se pergunta: “em que estou eu autorizado?”. Respondemos que ele se autoriza escrevendo os fundamentos da psicanálise lacaniana. Cito Miller: “Lacan se permite uma espécie de born again, que diria ‘desta vez, aqui estou eu pronto para agir! Enfim me torno eu mesmo!’”[3].
Após a publicação da coletânea Escritos, Lacan proferiu várias palestras sobre seu ensino. Na palestra em Bordeaux, para residentes de psiquiatria, manifestou sobre sua escolha do título do livro:
Reuni sob esse título as coisas que havia escrito, à guisa de estabelecer alguns pontos de referência, alguns marcos, como estacas que enfiamos na água para amarrar os barcos, para o que eu ensinara de forma hebdomadária durante cerca de vinte anos. Não julgo haver-me repetido muito. Tenho, inclusive, bastante certeza disso, pois dei-me como linha, como imperativo, nunca dizer de novo as mesmas coisas, mesmo assim isso causou certa sensação[4].
Na abertura dos Escritos, Lacan recupera o dito de Buffon: “o estilo é o próprio homem”, que Lacan subverte, escrevendo: “o estilo é o homem: vamos aderir a essa fórmula, somente ao estendê-la: o homem a quem nos endereçam”[5].
Endereça à comunidade analítica, privilegiando o leitor, para que questione a partir de si mesmo e transmita a partir da sua enunciação.
Queremos, com o percurso de que estes textos são os marcos e com o estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma consequência em que ele precise colocar algo de si[6].
Enfim, a psicanálise é um ato político que se atualiza na singularidade de cada falasser.
