“Eu sou uma arara”[1].
Quando folheava os Escritos, acabei me deparando com uma frase que me intrigava desde a primeira vez que a li. Trata-se da passagem em que Lacan retoma a frase dita por um Bororo a van den Steinen, “eu sou uma arara”[2]. Lida na tensão entre o eu e o sujeito, o imaginário e o simbólico, ela remete aos textos de Lévi-Strauss que aproximam psicanálise e xamanismo, discurso analítico e magia.
Lacan não deixa de lado a analogia feita por Lévi-Strauss, de que o psicanalista é um xamã. A psicanálise diz algo sobre a magia na medida em que esta “supõe o significante respondendo como tal ao significante”[3]. A magia opera no simbólico. Miller então se pergunta: o que significa dizer que a psicanálise é uma magia? Não bastaria afirmar como Lévi-Strauss. Deve-se considerar a Coisa, que não fala e está na natureza. O significante, do lado do encantamento, é mobilizado em direção a esta natureza, fazendo “falar o real que era mudo”[4].
Talvez seja possível aproximar o psicanalista e o xamã sem reduzi-los ao imaginário transferencial. Ambos fazem falar o real da experiência. Por outro lado, talvez seja necessário afastar o xamã e o psicanalista através da cisão entre o real e o sentido que incide sobre o sintoma menos como deciframento e mais como gambiarra.
O último ensino pode nos fornecer novas pistas: quando tomamos o corpo como contíguo ao imaginário, já não se trata de uma premissa especular. E assim, talvez, se possa ler “eu sou uma arara” lado a lado com o real em jogo.
José Augusto Rocha (Participante da EBP Seção NE)
