Fale!
Licene Garcia
(Associada ao Clin-a)
Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente[1].
Bem-feito, supereu! foi o título escolhido pela Diretoria para as XIV Jornadas da EBP-Seção SP. Desde seu lançamento, o tema tem mobilizado o entusiasmo ao trabalho em nossa comunidade. Coloco o acento em uma formulação de Maria do Carmo Dias Batista na apresentação do argumento, a qual me saltou aos ouvidos: “ao enunciar a regra, o analista emite o imperativo: Diga tudo o que lhe vier à cabeça! Fala como o supereu, incita ao Goza!”[2].
Há um paradoxo na regra fundamental que eu ainda não havia observado: ao mesmo tempo que é um imperativo: “Fale!”, é um convite que pode liberar o imperativo “Cale-se!”, próprio do supereu. Sigo a indicação de Miller: “o inconsciente é um fato, mas ele é suportado pelo que na análise o produz. Portanto, ‘ousar dizer!’, não ser esmagado pelo supereu da exatidão”[3].
Pergunto-me: se a fala do analisante é o único meio de acesso que o psicanalista possui — e colocar em marcha a regra fundamental é, em alguma medida, supor um Outro a quem possa me endereçar —, como pensar a direção do tratamento hoje, já que muitos sujeitos que nos procuram se mostram pouco sensíveis à palavra? Como subverter o “Cale-se!”, que empuxa ao curto-circuito da satisfação sem palavras, em um “Fale!”, que convide alguém a ousar alcançar “Um-dizer”?
Arrisco uma resposta que relança a pergunta de um outro modo: ainda nos Escritos, Lacan nos ensina que o fundamento que instaura a experiência analítica é que o analista paga com suas palavras, com sua pessoa e “com o que há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que vai ao cerne do ser”[4]. Sustentar a regra fundamental hoje é uma provocação para um “trabalho forçado de um discurso sem escapatória”[5] que inclua a presença do analista, mais do que nunca, como necessária para permitir o testemunho do sujeito que sofre do significante. Um analista como “testemunha de uma perda”[6], “que cura menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é”[7] – ou seja, que encarna a presença de um gozo irredutível ao significante, sob a forma de objeto a – um corpo que testemunha “o eco do fato de que há um dizer”[8].
