Entre a palavra e a escrita
Claudia Murta (EBP/AMP)
Sessenta anos depois de sua publicação, os Escritos de Jacques Lacan continuam colocando o leitor diante de uma experiência particular: lê-los não coincide necessariamente com compreendê-los. Talvez seja justamente aí que se encontre uma das razões de sua permanência. O texto resiste, interrompe a continuidade da compreensão e exige daquele que lê um trabalho.
“A palavra abre o caminho para a escrita”, afirma Lacan. A formulação introduz uma diferença entre palavra e escrita que atravessa os próprios Escritos. Ali encontramos palavras, certamente, mas também letras, fórmulas, esquemas e grafos. A palavra conduz até um ponto em que outra operação se torna possível.
Os gráficos e as fórmulas presentes nos Escritos precisam do dito que os acompanha para serem abordados. A palavra abre o caminho para a escrita, mas aquilo que se escreve não se reduz ao que pode ser dito. É nesse intervalo que o matema encontra seu lugar e introduz, no ensino de Lacan, a questão da transmissão. Se a palavra produz seus efeitos na cadeia significante e permanece aberta aos deslocamentos do sentido, o matema busca transmitir algo por meio da escrita. Ele não prescinde da palavra, pois é preciso falar para abordá-lo, mas tampouco se confunde com ela. Situa-se, assim, entre a palavra e a escrita, como uma tentativa de fazer passar algo que possa ser transmitido para além da compreensão e dos efeitos de sentido.
É justamente essa diferença que permite retornar à indicação de Lacan de que seus Escritos deveriam ser lidos antes de serem compreendidos. Se a transmissão não se reduz à compreensão, ler implica acompanhar os deslocamentos do significante e, ao mesmo tempo, encontrar aquilo que, no texto, resiste à produção imediata de sentido. A letra introduz outra relação com a leitura. Enquanto o significante adquire seu valor em relação a outro significante, a letra pode apresentar-se idêntica a si mesma. Com ela, Lacan procura transmitir algo que não se esgota no sentido.
Talvez possamos reconhecer aí uma das razões pelas quais os Escritos permanecem atuais. Eles não entregam ao leitor um saber pronto. Produzem uma experiência de leitura na qual alguma coisa precisa ser construída. Ler Lacan exige retornos, desvios, releituras. Em certos momentos, uma letra, uma fórmula ou um grafo interrompe o percurso do sentido e faz passar alguma coisa de outra ordem.
Há ainda uma consequência dessa experiência. Se compreender tende a fechar uma significação, ler pode mantê-la em trabalho. O texto lacaniano solicita o leitor justamente nesse intervalo. Dar algo de si na leitura não significa acrescentar ao texto uma interpretação pessoal, mas deixar-se implicar pelo trabalho que sua escrita exige.
Se a palavra abre o caminho para a escrita, ler os Escritos talvez seja aceitar percorrer esse caminho. Sessenta anos depois, eles continuam a produzir esse efeito: fazem ler onde compreender já não basta.
