“Pois o risco da loucura se mede pela própria atração das identificações em que o homem engaja, simultaneamente, sua verdade e seu ser. Assim, longe de a loucura ser um fato contingente das fragilidades de seu organismo, ela é a virtualidade permanente de uma falha aberta em sua essência. Longe de ser para a liberdade ‘um insulto’, ela é sua mais fiel companheira, e acompanha seu movimento como uma sombra”[1].
Essa frase de Lacan, apresentada em 1946 – ainda em meio aos desdobramentos da II Guerra –, comporta algo que vai além de uma ponderação pungente diante das inúmeras fantasias de normalidade que, vez e outra, ganham corpo e fazem terra arrasada. Nossa época também as tem, com uma abrangência que ganha novos contornos através do casamento renovado entre ciência e capitalismo. Contudo, ao destacar a loucura, a falha, a sombra que acompanha cada falante, essa frase de Lacan dá margem para uma relação outra com a própria experiência de ser habitado pela língua. E não por acaso, essa frase de Lacan parece ser igualmente capaz de apresentar um dos raios incandescentes que percorrem e animam seu ensino: do inconsciente estruturado como linguagem ao inconsciente real, diante da assunção do Nome-do-Pai ou de sua forclusão, com significantes-mestres ou letras que cifram um gozo alheio ao sentido, Lacan sempre se mostrou atento aos arranjos e desarranjos daquilo que implica uma opacidade, essa singularidade radical que se abre em parcerias, se aprofunda em solidões – essa espécie de terra de mais ninguém onde todos, e cada um ao seu modo, deliram. Muito longe de proscrever isso ao esquecimento ou de responder às demandas adaptativas da vez, Lacan nos convida justamente para um esforço de abordagem e formalização dos modos pelos quais a loucura, a falha e a sombra perfazem um certo funcionamento… uma vida.
Diego Cervelin (EBP/AMP)
