De Sade ao algoritmo
Ricardo Rezende
(Participante da EBP Seção LO)
Fazer um sobrevoo é assumir o risco de desenhar um mapa rápido que recorte a paisagem sem aplainar seus relevos. No espaço desta rubrica, sobrevoar o vivo de uma Seção é capturar de relance a faísca que salta de seus encontros e desencontros, transformando o escutado em pulsação de escrita. É com esse olhar que me debruço sobre a noite de apresentação do Argumento das VII Jornadas da EBP – Seção Leste-Oeste: A Psicanálise e a Estética do Real.
O texto de Ary Farias articulou a estética da percepção (aisthesis) à clínica do Real, contrapondo o fato estético ao anestesiamento cosmético contemporâneo. O autor também resgatou o conceito lacaniano do belo como barreira e cobertura contra o horror, bem como a disciplina da transgressão presente na ética de Sade. Por fim, propôs que, diante dos incontornáveis escombros do ideal, a clínica aponte para o sinthoma como uma escultura de gozo e um arranjo estético singular para o sujeito.
Durante os debates, a sutileza de um lampejo surgiu ao extrairmos do rigor de Kant com Sade o vigor de uma nova leitura: a fricção que se desenha entre a disciplina transgressora sadiana e o gozo desembestado de nossa contemporaneidade hiperconectada.
Para alinhavar melhor essas ideias, devemos lembrar que nos Escritos, ao articular Sade com Kant, Lacan nos apresenta a proposta de um direito ao gozo sobre o corpo do outro[1]. Apesar do cenário de horror, Sade estabelece ali uma ética rigorosa, litúrgica: há uma disciplina da transgressão, uma organização meticulosa e contratual da fantasia. Trata-se de uma lei estrita que visa provar a indestrutibilidade do sujeito, mantendo o belo como barreira contra a putrefação do real.
Em nossa época, contudo, desregulou-se esse compasso. O sujeito contemporâneo não opera mais amparado pela transgressão ritualizada, mas sob um imperativo de gozo que é publicizado, noticiado e mediado por gadgets e inteligências artificiais. Ao mesmo tempo, a tecnologia calcula uma perfeição simétrica e estéril, que mimetiza a arte sem ter um corpo pulsante; o algoritmo acaba por sequestrar o tempo da narrativa e pasteurizar o sensível. Sem a mediação simbólica ou o respeito à alteridade, resta a gritaria digital e o empobrecimento da experiência, em que o sujeito se consome num circuito de imagens. Esse movimento mina a constituição da relação com o desejo, escancarando, em última instância, a pulsão de morte. Que nos viremos com isso!
Enfim, o evento não apenas convocou a Seção ao trabalho, mas também celebrou de forma viva os 60 anos dos Escritos. E se, na linguagem cotidiana, uma resenha é sinônimo de um bom encontro de prosa solta, aquela noite honrou o termo com precisão.
