“A que silêncio deve agora obrigar-se o analista para evidenciar acima desse pântano, o dedo erguido do São João de Leonardo, para que a interpretação reencontre o horizonte desabitado do ser em que deve se desdobrar sua virtude alusiva?”[1].
Esse excerto de Lacan interessou-me especialmente pela expressão “horizonte desabitado do ser”. Ao lê-lo pela primeira vez, a questão que me surgiu dizia respeito a quem Lacan se dirigia: ao analisante ou ao analista? Essa indagação permitiu-me lê-lo a partir da proposição de que o analista deveria silenciar os sentidos profusos e acostumados, além de estar destituído de seu narcisismo, para que sua interpretação alcançasse a falta-a-ser do analisante.
Mais adiante, essa passagem é sublinhada por Miller, em El partenaire-síntoma, onde ele trabalhará esse horizonte como mais além, onde “nenhuma posse, nenhuma realidade, pode ser inscrita, apenas sua anulação”, para, em seguida transmutar o conceito do Outro no de parceiro-sintoma, o que engendrará um giro da concepção de sujeito para a de falasser, sendo que o dedo do analista passa, então, a indicar os modos de gozo de seu analisante. Em Lacan, a letra é viva, o que faz com que as mais diversas perspectivas sejam reformuladas, a depender do período de seu ensino a que estamos concernidos.
Carla Serles (EBP/AMP)
