Atualidade dos Escritos de Jacques Lacan
Antônio Teixeira (EBP/AMP)
O pensador é feliz quando não tem escolha.
François Zourabichvili
Para dimensionar, em 2026, a importância da publicação dos Escritos, 60 anos atrás, por Jacques Lacan, importa contextualizar o que ocorria naquele período. Em 1966, todos os grandes autores da corrente estruturalista francesa já haviam publicado suas obras de referência. Lévi-Strauss já era conhecido por suas Estruturas elementares do parentesco e sua Antropologia Estrutural; Foucault, por sua História da loucura e seus estudos arqueológicos; Barthes, por seu Michelet e seus Elementos de Semiologia; e, um ano antes, em 1965, Althusser acabara de publicar o seu Ler o capital… Somente um certo Jacques Lacan permanecia alheio a esse movimento, dele se separando como pensador sem obra, sem que nenhum motivo circunstancial o impedisse de publicar a visão de conjunto de sua doutrina. Pois o fazer-se obra não deriva, para Lacan, de algum tipo de voluntarismo particular. Se ele à obra consente, é antes, contrariado, em razão de uma escolha forçada, de uma decisão determinada pela força de um cálculo circunstancial, quando percebe que a apropriação da psicanálise em seu contexto a transformara a numa prática de gerenciamento de almas que não deixava mais lugar para o texto freudiano.
O que estava em questão para Lacan por ocasião da publicação dos Escritos, no final de 1966, eram os efeitos da ainda recente fundação da Escola Francesa de Psicanálise, criada em 1964, da qual ele assumiria explicitamente o encaminhamento tanto institucional quanto ético, político e epistêmico. A escolha forçada da obra se ligava ao imperativo ético de restituir o sistema de pensamento em que o texto freudiano, deturpado em sua apropriação instrumental pelo contexto da ego-psychology, voltasse a revelar sua necessidade própria. A refundação da doutrina freudiana como um sistema dotado de necessidade interna implica, antes de tudo, separar o texto doutrinal de seu uso circunstancial, instaurando, em meio à multiplicidade geral da cultura, uma superfície de refração. Nesse sentido, se Lacan recorre à obra, é por entender que ela tem por função separar o texto doutrinal da psicanálise do contexto cultural que a dissipa na pluralidade inconsistente das opiniões.
Não passou despercebido a Lacan que em muitos campos da cultura seus representantes se valham do pensamento freudiano com o único intuito de neutralizá-lo, de revogar suas consequências. Vale disso lembrar, pois esse fenômeno até hoje ocorre quando subtraímos a psicanálise da dimensão concreta da experiência clínica e dela fazemos um farrapo especulativo que possa servir de remendo a algum tipo de visão do mundo. E tal fato nos importa, pois a psicanálise nos indica as consequências tanto clínicas quanto políticas do não querer saber referido à dimensão concreta do real que sua experiência revela, visível não somente no triunfo crescente da idiocracia como também nos efeitos de planificação da linguagem de que fala Alexandre Nodari, no tempo em que a necessidade do pensamento cede lugar ao jugo da capitalização dos algoritmos.
