“Permitam-nos acrescentar aqui que sabemos ser o discurso lacaniano fechado ao entusiasmo, por ter reconhecido no que se chama ‘sua abertura’ o progresso de uma sistematização cuja coerência, através do ‘Relatório de Roma’, foi definitivamente estabelecida, e assegurado o seu fechamento. Eis por que, segundo o conceito que temos desses Escritos, ganha-se ao estudá-los como formando-se num sistema, a despeito da elipse do estilo, necessária, diz Lacan, para a formação dos analistas”[1].
Retomo essa passagem dos Escritos, localizada no “Índice ponderado dos principais conceitos”, elaborado por Jacques Alain-Miller, para colocar a lupa no “fechamento do entusiasmo”, no sentido de que não convém ao praticante da psicanálise uma adesão fascinada ou militante à teoria ou a um mestre. Considero que essa “adesão” produziria uma identificação fechada, onde se pretenderia deixar de fora os tropeços singulares que cada praticamente deveria atravessar para tornar-se analista. Miller cita Rousseau em seu curso Coisas de Fineza: “O entusiasmo é o último grau da paixão. Quando ela está no seu máximo, vê seu objeto perfeito: ela, então, faz dele seu ideal; coloca-o no céu”. Eis o perigo, então, de idolatrar o mestre, a partir do entusiasmo. Estudar Lacan em bloco, sem hierarquizar o primeiro o último ensino, “formando-se num sistema, como apresento na passagem”. Convém, então, ao analista, o desapego. “O desapego é a distância que vocês, como analistas, introduzem entre o significante e o significado”, precisa Miller.
Trata-se de uma operação necessária para que a palavra não se converta em um destino mortificante para o ser falante e para que a verdade não adquira consistência excessiva. É preciso manter-se desapegado do próprio inconsciente a fim de ocupar, para aquele que nos procura, a função de semblante de objeto e de parceiro-sintoma.
Ana Beatriz Zimmermann (EBP/AMP)
