A subversão e a causa analítica
Camilla Costa (EBP/AMP)
Os pilotis de madeira fincados no mar servem aos barcos como baliza para manobra ou ponto de atraque. Lacan se serve dessa referência para apresentar a função dos seus Escritos, “reuni sob esse título as coisas que havia escrito (…) alguns marcos, como estacas que enfiamos na água para amarrar os barcos”[1]. É com a publicação dos Escritos que Lacan relança, no horizonte de sua época, a posição subversiva da psicanálise, fazendo soar o barulho de seu ensino ao colocar em cena o impossível de compreender, o que, da relação de causa e efeito, manca.
O ato lacaniano que a publicação dos Escritos sela aponta para o paradoxo do inconsciente: ele é, a um só tempo, causa e efeito da subversão do sujeito. Num momento em que o estruturalismo se consolidava como episteme, Lacan relê a dialética do desejo para reintroduzir a subversão freudiana, o que impõe o saber com o inconsciente como condição de leitura. É o próprio texto do inconsciente que orienta a leitura; daí que “ler o que escrevi, mesmo sem compreender muito bem, faz efeito, prende, interessa”[2] – fórmula de uma travessia do objeto causa à causa analítica.
Tomar a subversão como coração da psicanálise não implica um gesto revolucionário. Ao contrário, instala um advir não realizável, pois introduz a condição mesma da disjunção que o gozo opera e uma modificação lógica do tempo de duração. A subversão faz cair e surgir, diacronicamente, causa e efeito, revelando a permanente inconstância do operador como ex-sistência – desdobramento significante que só se situa no intervalo da falha. Desse modo, a causa se apresenta como vacuidade, lugar do gozo proibido, uma vez que Lacan propõe a castração como “a mola mestra da própria subversão”[3].
A proibição que Lacan lê em Freud não indica a Lei que ordena, mas a Lei que articula o sujeito como causa, uma redução a mais que vai do sujeito como efeito de significação ao sujeito como falta. A redução que se apoia no sujeito como uma falta significante subverte a noção de sujeito do inconsciente porque inclui o hiato necessário para formulação da causa do desejo. Em sua dialética, o desejo, aponta Lacan, “é uma defesa, proibição de ultrapassar um limite do gozo”[4].
Em uma época marcada pelo domínio do ilimitado do gozo, lançar amarras ao que Lacan nomeou subversão do sujeito permite localizar, na experiência analítica, o sujeito ético – aquele responsável por sua posição inconsciente. Assim, tomar o desejo do analista enquanto leme faz operar a causa analítica, ao supor um ato que não implica um Outro como forma de surpreender o real.
