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Eixos de trabalho das III Jornadas da SLO

 O MISTÉRIO DA SEXUAÇÃO


 EIXO I – A SEXUALIDADE EM FREUD

No alvorecer do século XX, Freud anunciava a Psicanálise enquanto prática de tratamento paralelo aos modos e preceitos praticados pela medicina da época.

Inaugurada pela mulher, a clínica psicanalítica logo derivou seu leitmotiv à questão da sexualidade.

Partindo de uma noção de sexualidade presente desde sempre, Freud promove a infância ao ponto de partida para a investigação e compreensão da sexualidade humana, bem como, por efeito, escandaliza o senso comum, à época, que preconizava a infância como um estágio ainda livre dos rumores do sexo e do corpo.

Ao romper com a blindagem angelical onde então repousava a infância, Freud não só anuncia a vigência da sexualidade infantil, como também descortina o modo como isso se efetua, ou seja, o corpo infantil como lugar mor de prazeres difusos, de desmesura sexual. É verdade, um gozo sem ainda as marcações efetivas da linguagem e da cultura, o que lhe confere (a esse gozo) uma expressão desordenada, toda vigente. Isso foi sintetizado na expressão “polimorfia sexual”, quando a pulsão ainda contava deveras desorientada, por isso “perversa”.

Freud acoplou ao seu método de investigação e tratamento, ao seu construto teórico, o conceito de falo — repercussão imaginária da diferença anatômica entre os sexos — e, da literatura mítica, importou da personagem de Édipo, acessórios conceituais que viriam a ser, mais tarde, os eixos da sustentação basal do edifício teórico psicanalítico, juntamente com os conceitos de inconsciente e castração.

De início, a psicanálise exigiu um esforço de artesania conceitual.

Isso posto, podemos pensar que falo, complexo de Édipo, inconsciente e castração foram as roldanas nucleares forjadas por Freud, por onde se movimentam as cordas pulsionais que sustentam esse desequilíbrio estável que temos por tradição nominar como sexualidade.

Pela vastidão do que a realidade atual apresenta, isso, por si só, pede palavras esclarecidas…

Ary Farias
EBP/AMP

EIXO II – PARCERIAS SINTOMÁTICAS

O parceiro-sintoma é aquele a quem se tem algo a dizer, por estar, por assim dizer, atravessado na garganta, é o que vem das vísceras, o visceral. Fonte de um profundo desprazer e de um prazer intenso, o parceiro-sintoma é aquele que se tornou o “o impossível de suportar”[1], ainda que dele seja, igualmente, impossível de separar-se. Assim, “o verdadeiro parceiro do falasser é o seu real, é o que resiste”[2]. O que a análise pode fazer aí?

É no nível das parcerias sintomáticas que se evidencia o que Lacan desenvolve em seu Seminário 20, mais ainda: a linguagem não se serve à comunicação, mas ao gozo do corpo. Cada palavra, pensada ou dita pelo falasser, vincula um gozo que afeta e perturba seu corpo e se estende “por toda parte”[3] em sua vida. A noção de parceria sintomática está, assim, calcada numa perspectiva em que “o inconsciente é que o ser, falando, goza”[4]. Como poderíamos compreender essa mudança de perspectiva?

Essa perspectiva é a mesma que decorre da inexistência da relação sexual, que se traduz no fato de que os parceiros não se entendem, pois não há diálogo possível entre eles. O laço entre eles não se estrutura pelo discurso, mas pelo gozo sintomático que vem enodar um ao outro lá onde o significante falha em fazê-lo. Assim, “cada vez que se estabelece para alguém o que parece ser uma relação sexual, é, na verdade, uma relação sintomática”[5]. Como se dá, na singularidade de cada um, o enodamento sintomático?

A noção de parceiro-sintoma foi proposta por Jacques-Alain Miller em seu Curso El partenaire-síntoma. Ela foi forjada para substituir a relação de desejo entre um sujeito e o Outro pela relação de gozo entre dois corpos vivos e sexuados. “Foi assim que propus o termo parceiro-sintoma como simétrico a parletre (falasser), destinado a substituir à parceria constituída pelo sujeito barrado e o Outro”[6]. Aqui também perguntamos pelas consequências dessa mudança teórica.

O sujeito barrado pode se articular com um objeto na fantasia ($◊a), mas a parceria sintomática supõe um mais além de toda relação significante, supõe dois corpos sexuados que se vinculam por meio do gozo sintomático:

Corpo sexuado do falasser ˂ Σ ˃ Corpo sexuado do outro

A noção de parceiro-sintoma constitui, portanto, uma referência fundamental para pensarmos o “Mistério da Sexuação”, tema da próxima Jornada da Seção Leste-Oeste da EBP. Se o gozo sintomático é aquele que não pode ser curado, podemos, em nossas indagações, partir da ideia de que “fazer uma análise é cernir e liberar a maneira que cada um se deparou com o enigma sexual. É esclarecer o modo que o inconsciente interpretou este enigma e encontrar uma melhor maneira de fazer com ele”[7].

Cristiano Pimenta
EBP/AMP

EIXO III – O SEXO NA PSICOSE

Há sexo nas psicoses, mas sempre ocorrem questões sobre a constituição da vida sexual nessa estrutura.

Se a foraclusão do Nome-do-Pai (P0) não possibilita ao sujeito a incidência da significação fálica (0), ele não se situa simbolicamente na partilha dos sexos, ou seja, no drama entre ser ou ter o falo. Na ausência dessa operação o objeto a não sofre extração. Como pensar a sexualidade nesses casos sem a conformação da fantasia fundamental?

A partir da não incidência do significante privilegiado que ordena a entrada do sujeito na linguagem, articulando lalíngua e laço social, observa-se a emergência de um gozo fora do limite fálico, gozo outro, apontado como o “empuxo à mulher”.

O gozo sexual se organiza a partir do imaginário, da experiência de um corpo sem referência ao falo, requerendo invenções singulares na constituição da vida sexual. É possível localizar o psicótico no quadro da sexuação de Lacan[8]?

É preciso levar em conta que avançamos muito nesse terreno e que a clínica se mostrou continuísta com o advento do “conceito” de psicose ordinária, proposto por Jacques-Alain Miller.

A quarta externalidade trabalhada por Miller[9], que concerne à sexualidade, mantém a orientação de que é preciso buscar os pequenos sinais “de uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito”[10], quando se trata de definir um diferencial estrutural.

Essa orientação nos remete a Freud, aos casos clássicos, no sentido de nos perguntarmos como é que o sexo advém nas psicoses.

Romulo Ferreira da Silva
AME/AMP

EIXO IV – FÓRMULAS DA SEXUAÇÃO

Lacan recorre a escrituras lógicas para explicar como se dá a sexuação[11], a partir da função fálica, x, situando os que se dizem homens no regime dessa função: para todo x, x, tendo no horizonte ao menos um que não se submeteria à castração: existe um x tal que não x. A não relação entre os sexos é recoberta pela castração imputada ao pai. Mas Lacan não escreveu, para o que concerne às mulheres, para todo x, não x. Ele escreveu, e é muito mais sutil, a negação sobre o todo: não todo x, x. Não toda mulher se submete à castração, algo na mulher escapa à castração. É aí que se situa o mistério do gozo feminino, para além do falo. Lacan o percebeu através da mulher, mas generalizar esta fórmula lhe permitiu destacar o que chamou de sinthoma[12], o modo de gozo singular de cada um, para além ou resto da função fálica.

A todo ser falante é permitido, seja ele provido ou não dos atributos da masculinidade – atributos que restam a determinar – inscrever-se nesta parte. Se ele se inscreve nela, não permitirá nenhuma universalidade, será não-todo, no que tem a opção de se colocar na função fálica ou não. Junto com não todo x, x, temos a fórmula: não existe x tal que não x, a negação da exceção. Por não haver uma exceção que funde o todo, estamos no regime do não-todo.

Do lado masculino, Lacan escreve $ e . $, seja ele homem ou mulher, tem como parceiro o objeto a inscrito do outro lado da barra, objeto de sua fantasia. Do lado feminino situamos o que, impropriamente, chamamos a mulher, pois Ⱥ significa que não há um significante para nomeá-la. O significante do Outro só pode continuar sendo sempre Outro: S(Ⱥ). A mulher tem relação com S(Ⱥ), gozo enigmático, e é nisso que ela se duplica, pois, por outro lado, ela pode ter relação com o , do outro lado da barra. Na relação com S(Ⱥ), uma mulher goza do que escapa à medida e tende à infinitude. Por isso, Lacan situa os místicos desse lado, sejam eles homens ou mulheres.

Por mais que a diversidade de modos de gozar se multiplique, as fórmulas da sexuação escrevem o impossível da relação entre o Um do gozo de cada um e o Outro como alteridade absoluta.

Elisa Alvarenga
AME/AMP

[1] Miller, J.-A., Certain problème de couple; In: https://www.causefreudienne.net/certains-problemes-de-couple/
[2] Miller, J.-A., Certain problème de couple; In: https://www.causefreudienne.net/certains-problemes-de-couple/
[3] Miller, J. -A., El partenaire-síntoma, Buenos Aires, Paidós, 2008, p. 397.
[4] Idem, p. 128.
[5] Miller, J.-A., L’invention du partenaire. In: https://www.causefreudienne.net/linvention-du-partenaire/#:~:text=C’est%20le%20petit%20morceau,pour%20chacun%20un%20partenaire%20essentie
[6] Miller, J.-A., El partenaire-síntoma; Paidós; 2008; Buenos Aires, p. 401.
[7] Miller, J.-A., L’invention du partenaire; In: https://www.causefreudienne.net/linvention-du-partenaire/#:~:text=C’est%20le%20petit%20morceau,pour%20chacun%20un%20partenaire%20essentie
[8]  LACAN, J. O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro. 1985.
[9] MILLER. J-A. Efeito do retorno à psicose ordinária (2009). In BATISTA, M.C.D.;LAIA, S. (Orgs.) A Psicose Ordinária: a Convenção de Antibes. Belo Horizonte. Scriptum. 2012.
[10] LACAN, J.(1998[1955-1956]) “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
[11] Lacan, J. Mais, ainda. RJ, Zahar, 1985, p. 105.
[12] Miller, J.-A. L’Un tout seul. Lição de 02.03.2011.
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