Zeitgeist: Carandiru a céu aberto
Angélica Bastos (EBP/AMP)
Uma leitura da época começa pela dessexualização sofrida pela vida erótica, em sua mais ampla e psicanalítica acepção, para atingir os limites do laço social. Se “o real do vínculo social é a inexistência da relação sexual”[1], conforme se lê no argumento apresentado pelo Diretor de nosso próximo XV Congresso da AMP, os discursos que daí resultam são cada vez menos investidos, convocando o psicanalista a sustentar a palavra. A configuração contemporânea do laço social e o Zeitgeist (espírito da época ou sinal dos tempos) me levam a considerar um fato recente a partir da clínica e da vida na cidade em que moro e trabalho.
Passadas poucas semanas do fatídico acontecimento de 28 de outubro de 2025 no Rio de Janeiro, verifico que as palavras que o designam se substituíram rapidamente umas às outras. Inicialmente, veiculado pela mídia e pelos boatos concomitantes ao próprio evento, o termo “guerra” se fez escutar dos aterrorizados habitantes da cidade e logo foi acompanhado por um cortejo de outros significantes, mais propícios a significar a tragédia que se abateu sobre tantas pessoas e famílias naquela terça-feira.
Para além do eufemismo de sua denominação inicial – “Operação contenção contra o Comando Vermelho” –, termos como “violência de Estado”, “extermínio”, “chacina”, “matança” e “massacre” (já empregado em relação ao Complexo Penitenciário do Carandiru) se revezaram, dando lugar a um que se consagrou: “a megaoperação policial nos Complexos da Penha e do Alemão”. Não sem a iniciativa das autoridades policiais e congêneres, não sem o concurso da mídia e da opinião pública, o termo “megaoperação”, quase um superlativo, veio para ficar.
S. Freud e A. Einstein cedo constataram os efeitos multiplicadores da marcha da ciência sobre a atrocidade inerente às guerras, à proporção que atividades intelectuais e tecnológicas ganharam terreno sobre a força bruta e a violência muscular na cultura ou na civilização. Drones e rajadas de tiros lançados de todo tipo de armamento bélico, em sobrevoo a comunidades carentes de nossa cidade, nem por isso deixam de possuir um ineditismo assustador.
Se não faltaram palavras para nos referirmos ao episódio, nenhuma delas pode melhor do que “megaoperação” tanto indexar as proporções inauditas da violência e do número de vítimas, quanto velar o caráter aniquilador da ação policial. O prefixo “mega” – unidade de medida que corresponde a um milhão, ou seja, a uma medida multiplicada 1.000.000 de vezes – diz com precisão da desmesura, da exorbitância de uma ação. Em contrapartida, o termo “operação” – de ordinário aplicável a ações que vão do combate ao contrabando até a segurança pública no carnaval – encobriu o caráter mortífero da intervenção.
Desta vez a céu aberto, a injustificável letalidade da ação policial, pretensamente destinada a cumprir mandados de prisão, alcançou um número de vítimas por enquanto não definitivo, porém, sem dúvida alguma, superior ao número de assassinatos perpetrados em 1992 no Complexo Penitenciário do Carandiru, na zona norte da cidade de São Paulo. Malgrado a demolição do presídio e a construção, em seu lugar, de um Parque da Juventude, o sistema carcerário brasileiro não se desfez da superlotação e da extrema violação aos direitos humanos. Tampouco o combate ao crime organizado no Estado do Rio de Janeiro abdicou da ultraviolência. Nem tudo é repetição, mas o novo ainda não se viu surgir.
As comunidades dos complexos da Penha e do Alemão seguem na tentativa de um luto que beira o impossível. Por isso mesmo, a época requer o recurso aos discursos de que dispomos sobre o fundo da não-relação sexual, pois esta última torna os discursos imprescindíveis.
