Uma Noite da Biblioteca Seção NE: Navegando no barco sexual
Carlange de Castro[1]
A atividade Noite de Biblioteca, da Seção Nordeste, desembarcou no barco sexual. Para tal, a conversa se apoiou no aforismo lacaniano Não há relação sexual, tema do próximo Congresso da AMP, discutindo essa impossibilidade fundamental no encontro entre homens e mulheres, e suas consequências clínicas e culturais. Para tanto, Wilson Lima retoma uma reflexão a partir do texto de Fabián Fajnwaks, Não há relação sexual… então há amor[2], que propõe uma implicação lógica segundo Lacan: o amor seria a suplência da falta estrutural da relação sexual, ou seja, o que mantém o vínculo entre os corpos diante da sua ausência estrutural no simbólico. Suas considerações enfatizam que o amor é contingente e seu drama é a passagem da contingência à necessidade, um jogo que não se tem garantias. Apesar de não haver relação sexual, há o sexual, e o amor pode agir como sombra suave que tenta cobrir o vazio deixado pela ausência.
Acompanhando essa correnteza, Glacy Gorski abordou a dificuldade intrínseca aos encontros entre homens e mulheres, ilustrando com o filme Olhos Bem Fechados, de Kubrick. Ela demonstrou que não há uma proporção ou encaixe perfeito entre os sexos, revelando uma lógica irredutível do real que afeta profundamente as relações amorosas e sexuais. O amor masculino é descrito como fetichista, enquanto o feminino se apresenta como erotomaníaco, isto é, marcado pelo desejo de ser amada. A ausência desse amor pode levar à devastação e à loucura, como no caso de Dora Maar após sua separação de Picasso. A seguir, ela se apoiou no texto de Éric Laurent, Gênero e gozo[3], para dizer que não há relação sexual, mas que os seres sexuados fazem amor, apesar disso não ter inscrição na linguagem a não ser como “chicana”.
As pontuações da noite nos levam a refletir que a busca intensa por fazer existir a relação sexual, por meio do poliamor e das relações com IA, são parcerias que atualmente se estruturam em torno do gozo, deixando em segundo plano o amor, fazendo prevalecer a lógica do ‘Há Um!’
Para concluir, como faroleiro dessa navegação, o papel clínico e ético do psicanalista diante da impossibilidade da relação sexual consiste em apostar em um amor de transferência que reconheça a falta estrutural, abrindo espaço para que cada sujeito possa inventar de forma singular sua própria resposta a esse desafio.
