Um sobrevoo: do universal d’a não relação sexual ao singular do Um-sozinho?
Ordália A. Junqueira (EBP/AMP)
Em dezembro de 2025 a EBP-LO se propõe a trilhar nas referências bibliográficas disponíveis no site do XV Congresso da AMP: Não há relação sexual -Paris, 30/4 a 3/5/2026. Tânia Prates decanta algumas e Virgínia Carvalho (EBP/AMP), produz seu texto: Fernando, a “sexomania” e o mistério da sexualidade. Tentarei sobrevoar pelo mistério dessas pérolas, mesmo correndo o risco até de “… voar fora da asa.”
Como ponto de partida sobrevoarei a discussão final. Jésus Santiago – autor do Caso Fernando, que Virgínia nos traz – provoca com a questão: “O aforisma lacaniano, Não há relação sexual, é Universal ou não?” A propósito dessa provocação, voltarei ao início, onde Virgínia destaca um dos paradigmas do gozo de Miller (2012):
(…) a relação sexual não existe quer dizer que o gozo provém, como tal, do regime do Um (…) ao passo que o gozo sexual, o gozo do corpo do Outro sexo (…) é especificado por um impasse (…) por uma disjunção e por uma não-relação. É o que permite Lacan dizer que o gozo não convém à relação sexual. O gozo como tal provém do Um (…) não estabelece relação com o Outro. (…) A relação sexual não existe quer dizer que, no fundo, o gozo é idiota e solitário.[1]
Em minha leitura, localiza-se aqui uma primeira luz nesse misterioso aforismo lacaniano. Virgínia cita Ricardo Seldes (2025)[2] – diretor do XV Congresso – que nos aconselha a recordarmos do mesmo “não para repeti-lo como um mantra, mas para interroga-lo, reter suas coordenadas (…) no qual seu uso possa ser provado ou refutado na nossa prática clínica atual.”
Nesse trilho, Virgínia segue com o Caso Fernando e a “sexomania” – termo utilizado por Lacan (1974). O caso nos permite sobrevoar preciosos pontos: a não relação sexual se trataria de uma construção, de uma invenção; o uso da fantasia foi uma forma de não se a ver com o amor; brincar com o objeto seria possível se ele se separasse do objeto olhar; o esfoliar o imaginário reduz a fantasia ao objeto da pulsão; a separação do objeto olhar foi mais um efeito de um forçamento do que de uma subjetivação do sujeito.
Assim, frente a questão se a relação sexual é universal ou não, proponho o sobrevoo ao avesso do universal, em direção ao singular: do sinthoma; do Um do gozo; do Um-sozinho; do Outro que não existe. Enfim, uma convocação a um voo fora da asa...
[1] MILLER, J.-A. Os seis paradigmas do gozo. Opção Lacaniana online, n. 7. Disponível em <<< http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf>>. 2012, p. 47.
[2] SELDES, R. Do mistério ao segredo do sexual. Disponível em << https://congresamp.com/pt/blog/do-misterio-ao-segredo-do-sexual/>>. Blog XV Congresso da AMP, 2025.
