Um sobrevôo ao Congresso Mundial: exílio
Maria Wilma S. de Faria (EBP/AMP)
Para esquentar os tambores e aquecer o clima de trabalho rumo à Jornada Clínica do XV Congresso da AMP, na noite do dia 27 de novembro último, a Diretoria da Seção Minas convidou duas colegas para apresentarem casos clínicos que elucidassem o vivo da clínica frente ao aforismo de Lacan Não há relação sexual. Tal tema nos instiga e coloca a trabalho. A impossibilidade de escrever a relação sexual é marca que singulariza a sexualidade. Exatamente por habitar a linguagem, há, para o falasser, o exílio: a impossibilidade do encontro na relação do homem e da mulher.
Exílio foi um dos significantes enigmáticos pinçados por mim, tanto no caso de uma mulher, que iniciou recentemente uma análise com Lilany Pacheco, quanto no “Caso Matias”, conduzido há muito tempo por Andrea Eulálio. Modos diferentes de se posicionarem frente ao gozo e ao real que do sexual faz furo no saber. Temos com Marie-Hélène Brousse que “exílio é um nome dado à nossa relação com a linguagem e com lalíngua.”[1]
No primeiro caso, a mulher se exila em um país de “língua dura”, que, porém, lhe permitiu ser ela mesma, logo após a perda súbita de seu namorado, para a sua mãe. Vive impasses com a mãe, convidando-a, vez ou outra, para visitá-la. Neste país, conhece aquele que vem a ser seu marido, também estrangeiro. Decidem eleger o inglês como língua possível de se comunicarem e vão morar em um quarto país, vivendo então entre línguas. Demanda uma análise para conseguir lidar com seu retorno à língua materna. Em análise, é possível localizar que os impasses vividos entre ela e o marido passam pela questão da língua e revelar que a filha do casal foi fruto mesmo de um mal-entendido da língua, uma vez que, a partir de um equívoco homofônico, ela autoriza o companheiro a ir adiante no gozo, o que os levaram a engravidar. Nesse caso, podemos ver com Lilany e levantar alguns pontos: “o desencontro da língua foi o que os uniu”; a Outra mulher é encarnada pela mãe; o exílio entra como uma solução, uma escolha forçada para separá-la da devastação materna e até mesmo, interrogar se a análise não entraria como uma quinta língua com o estatuto de exílio. Lilany indaga-se “falar a língua materna sob transferência, não seria um modo dela encontrar o véu face à devastação”.
Já o “Caso Matias” nos aponta um falasser insatisfeito com sua vida profissional, escolhida sob a égide do supereu paterno, que traz questões sobre “quem é ele, o que é ele, e para onde vai”. Para além desta queixa, relata estar pensando, juntamente com a esposa, em abrirem a relação, incluindo a presença de um terceiro, seja ele de qualquer sexo. Entre buscas constantes de saber, nos clássicos da literatura, elucubrações e pesquisas psicanalíticas, esbarra no silêncio e cortes da analista. Um certo esvaziamento acontece e a partir de um “não ter nada para falar” o divã lhe é ofertado e introduz um terceiro, o que lhe permite não realizar este acting out na relação. Desinflando o imaginário, já no divã, é possível falar de uma cena infantil, onde beijando um menino, é visto por cima de um muro, por outra criança, que passa a difamá-lo. Tal cena atinge em cheio seu corpo e sua “condição de homem”, marcas do trauma e de um gozo. O olhar do fofoqueiro e a difamação fazem deste sujeito “um exilado de sua própria história”, tal como nomeia Andrea. Tal cena é atualizada quando amigos passam a difamar seu irmão provocando-lhe uma raiva e ódio imensos. Matias produz um sonho onde se lambuza todo, marca de um excesso, impossível de se limpar. Diante desse impossível, tenta encontrar uma forma de lidar com o que resta do gozo opaco, e é pela transferência que a escrita poética emerge como uma pequena invenção. Após o relato do sonho, ele associa com um de seus poemas, onde aparece a figura de uma joaninha, imagem do real que encarna seu gozo e marca de exílio.
Na discussão desta noite, Elisa Alvarenga nos esclarece, a partir de uma tradução livre de um texto de Christiane Alberti[2], que “exílio significa ser expulso para fora do lugar do Outro, no qual se inscreve o sujeito. Só há exílio para os seres falantes, que o experimentam como dor de existir, arrancamento do Outro e de si mesmo”.
No gozo do Um, cada falasser está exilado, gozo enigmático, sem sentido, ao qual cabe inventar um modo de se a ver com ele. Os casos acima nos ensinam como cada um respondeu à sua solidão estrutural, traço do exílio da relação sexual que não há, bem como ensinam que a verdadeira língua do Outro é o inconsciente.
Espero que com esse “aperitivo” nos aproximemos um pouco do que será o “banquete” ofertado no XV Congresso da AMP!
