Três
Luiz Felipe Monteiro (EBP/AMP)
Intitulei essa intervenção com o número “três”, porque me pareceu a forma mais simples de dizer algo sobre o que foi essa possibilidade de conversa com os textos de Laura Rubião, Cristiano Alves Pimenta e Maria Inês Lamy.
Foi uma ótima oportunidade de poder me deixar tocar pela produção que os três colegas fizeram para o Scilicet A não-relação sexual. Na noite em que houve a conversação, a possibilidade de ouvi-los a partir daquilo que foi comentado e ressoado nas minhas palavras tornou essa intervenção mais vivaz, do que lhes agradeço.
“O nó no dizível e a não relação sexual”, Laura Rubião
Esse texto é baseado em uma passagem do Scilicet, proveniente de um cartel que trabalhou a frase de Lacan: “por causa de ele falar, o tal gozo, a relação sexual não há”.
Essa frase indica que há uma relação entre as palavras e o gozo. Esse me parece o ponto primordial. Essa relação é, paradoxalmente, possível graças à impossibilidade estrutural de haver qualquer relação para os falantes no que concerne ao real do sexo. Aquilo que, do sexual, não faz aliança nem com o imaginário, tampouco com o simbólico.
A força da frase de Lacan ressoada pelo texto de Laura está em ressaltar como a relação possível entre as palavras e o gozo se dá sob o fundo de uma impossibilidade estrutural de que haja, no sexual, algo que seja de dizível.
Essa impossibilidade como condição é trabalhada por Laura Rubião através da menção à figura do nó: “o nó no dizível”. Demorou um tempo até captar as ressonâncias dessa expressão, que se apoia naquilo que, no dizível, faz laço. Ao mesmo tempo, é uma espécie de bloqueio – um nó no dizível.
Uma criança poderia dizer “estou com um nó na garganta”. Essa expressão é uma maneira de cartografar no corpo a impossibilidade estrutural de fazer relação do real pulsional e aquilo que pode ser veiculado pela linguagem enquanto sentido. Um umbigo na garganta se pudéssemos elucubrar com a citação cara a Laura no seu texto ao umbigo do sonho.
Um sintoma como um nó na garganta não diz nada além de que, ali, há um corpo vivo que faz algo singular com a impossibilidade universal nomeada pela não-relação sexual. Se quisermos acompanhar Laurent: “há sempre um laço entre esse corporal e o que lhe vem a faltar pela estrutura da linguagem que, podemos dizer, se enxerta, se junta a seu corpo como tal”[1].
Fico pensando, Laura, que depois de ler seu texto, quanta sorte há naquele que pode emprestar seu corpo a fazer nó no dizível, por abrigar a faísca do impossível e aí escrevê-la de modo singular, ainda que provisório e precário.
Digo “sorte” porque compor e escrever um sintoma vivível nem sempre está à mão de um falasser. “Nó no dizível” me parece ser uma expressão que orienta por onde um analista poderia se haver diante dessa precariedade, por vezes constatado em tantos casos. Assim, o interrogante que foi suscitado por essa leitura tem a ver com a ideia do analista como parceiro-sinthoma, isto é, como uma espécie de conector possível para esse nó no dizível poder ser inventado ou localizado em cada caso.
“O sinthoma e a inexistência da relação sexual”, Cristiano Alves Pimenta
O texto de Cristiano é fruto do trabalho de cartel em torno da frase de Lacan: “não há relação sexual porque o gozo do Outro, tomado como corpo, é sempre inadequado”.
O texto convida o leitor a pensar como não ver no amor, no encontro entre os parceiros amorosos, uma das respostas para o gozo solitário, aquele do “um sozinho”. Em outro momento, Cristiano comenta sobre esse gozo como vazio, doloroso.
Isso me colocou a pensar, pois, de alguma maneira, o texto atribui uma qualificação a essa dimensão do “um sozinho” conferida pela não-relação sexual. Parece-me que é uma questão, uma interrogação, se é possível conferir algum predicado a essa dimensão estrutural da condição do ser falante.
O que mais me pareceu interessante no texto, e que gostaria de trazer para compartilhar e convidar a conversarmos, é o modo como se aborda o tema do amor. Pessoalmente, nunca me agradou muito a ideia do amor como suplência à não relação sexual e digo isso porque me parecia que o amor não é algo que responda tanto aos infortúnios da não relação sexual. É no amor que se experimentam os maiores desencontros, afinal.
Mas é aí que reside a sutileza: meu incômodo com a ideia é fruto de uma equivalência rápida e ilusória entre o amor e o amar, como bem já disse Djavan. Se pensarmos o amor substantivo, é claro que não estaremos captando o que Lacan quer dizer quando fala do amor como uma suplência. Não me parece que a coisa se decida nesse nível tão carregado de sentido.
Então, achei interessante, pois, com a leitura atenta, o texto me levou para outro lugar, algo assim: o amor é uma resposta à não-relação sexual muito mais por aquilo que nele é contingência. Ou seja, menos por haver, ali, um laço, e mais por aquilo que, nesse laço, também é choque e ressoa o gozo singular e sintomático de cada um. Não é preciso apelar aos desfiladeiros do amor substantivo para captar o quão sem sentido e contingente é o verbo amar, sobretudo quando está à revelia das harmonizações.
É curioso, porque é no choque de um encontro amoroso que algo do gozo singular e sintomático pode ressoar para cada um, ainda que esses gozos não se comuniquem. É possível pensar, e Lacan chega a falar disso, em um nó inter-sinthomático, mas como enodamento, e não necessariamente como algo que “faz relação”. Enfim, questões… Será?
A frase afirmativa, de que “uma análise não se reduz à confrontação com a não-relação sexual, mas sobretudo com o encontro com a existência e incidência do sintoma”, é uma frase forte. Aponta para aquilo que, em uma análise, também produz um choque contingente de cada um com seu modo de gozo.
Por fim, o texto convida a pensar uma nova aliança com o sintoma ao final de uma análise. Como seria pensar essa aliança com aquilo que é sempre exílio em cada estilo de gozar, de cada ser falante?
É um paradoxo, mas um paradoxo dado pela própria lógica da frase: não-relação sexual – uma aliança com aquilo que não se alia, que não faz laço. Isso é o que se convoca em cada análise, pois esse chamado é uma dimensão ética de como cada um se vira com o sinthoma em sua inadequação estrutural.
“A histeria e a relação sexual”, Maria Inês Lamy
Esse texto de Maria Inês integra o cartel formado em torno da frase de Lacan: “Fui conduzido pela relação sexual, isto é, pela histeria”.
Achei curioso ouvir essa frase de Lacan, e não sei como soou para vocês, mas a mim, ela soa bastante irônica. Afinal, não foi só Lacan que foi conduzido pela histeria; todos nós, desde Freud, fomos conduzidos por ela. A histeria foi o fio condutor da própria psicanálise e, sobretudo daquilo que, nela, pode ser verificado da relação entre as palavras e os corpos, o significante e o gozo; em suma, o litoral êxtimo que cada um carrega no corpo vivo que se tem e logo escapa.
O texto de Maria Inês Lamy parte do pressuposto de que há algo na histeria que marca um ponto-chave na apreciação de um psicanalista sobre o tema da não-relação sexual. É desse ponto de partida que Inês compartilha conosco as interrogações clínicas: seria possível tratar ou “emendar” o gozo da insatisfação em um sintoma? Essa seria essa uma orientação para o tratamento da histeria?
A insatisfação está tão à mão dos corpos falantes que tê-la como fio me parece interessante, sobretudo para localizar em cada caso o uso que cada um faz dessa insistente teimosia e ouvir a música dos Rolling Stones – I can’t get no satisfaction.
Tendo a pensar que, nessa insatisfação, está o gosto pelo gozo dito fálico, fora do corpo, e ilimitadamente apelando ao mais um. Um pouco mais, mais um minutinho, mais um copo, mais uma palavrinha.
Achei interessante isso que ressoa na leitura desse verbete, pois em vários casos não me parece tão fácil distinguir por onde o ilimitado apela ao mais um do campo fálico, e por onde o ilimitado é um perfume do gozo extraviado a esse mesmo campo fálico. Talvez seja útil a sútil diferença entre mais um e mais-ainda. Não sei o que pensam, mas talvez tenhamos aí um ponto de debate.
Digo um pouco mais, é difícil fazer essa afirmação. Mas, se partimos do suposto da clínica do singular e radicalizamos essa dimensão, é possível questionar um pouco o próprio tipo clínico: histeria.
É claro que foi com esse enquadramento que muito do que existe na psicanálise pôde ser dito. Mas fico pensando como articular o sinthoma com a sua solução singular frente ao universal da não-relação sexual? Será que, nessa articulação entre singular e universal, haveria necessidade de fazer uso do recurso particular do tipo clínico? Por outro lado, e já me contradizendo, não parece fazer sentido, qualquer radicalização em psicanálise que perca de vista o quão operativo é um conceito, quando bem formulado, como é a própria histeria. Talvez não seja possível situar os meandros do singular sem um recorte conceitual que particularize elementos de um tipo clínico. O próprio estatuto do termo “histeria” se distancia do campo do tipo clínico, situando-a propriamente como um discurso, discurso da histeria. Elemento que está muito bem demarcado no texto.
Esse vai e vem me faz lembrar uma passagem do Didi-Huberman, que sacou, quando esteve no Parque Lage, no Rio, que não faz sentido algum pensar em radical como uma raiz que perfura verticalmente o solo, quando se constata, como em uma selva, que as raízes não somente são barrocamente tortas, mas não obedecem a qualquer lei gravitacional, sobem em paredes e perfuram muros. Estão por todos os lados e não se fecham em si mesmas.
Com essa reflexão, concluo a minha fala e as intervenções em torno dos textos dos colegas, agradecendo a oportunidade de estar aqui participando desta atividade e reconhecendo o trabalho feito por tantos nesses verbetes que estão no livro.
