Trauma: do singular ao social
Wilson Lima
A Seção Nordeste, durante os dias 05 e 06 de dezembro de 2025, realizou em Recife – PE, sua V Jornada, tendo como tema “Trauma” e como convidado Marcus André Vieira. Vejo a escolha do tema como um ato de coragem, pois falar de trauma é algo que diz respeito a todo ser falante e faz ressoar no corpo o que se inscreveu como trauma para cada um.
Trauma, trou, traumArte, furo, fissura, corpo, fantasia, analista-trauma são alguns dos significantes que ressoaram para mim ao longo da jornada. Sem esquecer o nome da festa “aBalada do trauma” que, pelo equívoco significante, fez do trauma uma trama dançante.
Entre os trabalhos clínicos apresentados, alguns abordaram o trauma do incesto. No Seminário 24, Lacan afirma que “não há relação sexual, exceto incestuosa ou assassina”[1]. Se o impossível da relação sexual é eliminado, que efeitos o trauma do incesto tem para um sujeito no que diz respeito a esse impossível da relação? Que solução um sujeito pode inventar para se distanciar do horror do trauma incestuoso? Seria o amor uma via possível para fazer operar algo do impossível da relação sexual nesses casos? Em um dos trabalhos apresentados, a seguinte questão pareceu se delinear “como amar um homem após ser abusada pelo pai?”. Passar de objeto do Outro a um amor mais digno é uma travessia delicada que não se dá sem que o sujeito esteja implicado em modificar algo da sua posição de gozo.
Aqueles que matam aquelas que são difamadas[2]
Em sua prática clínica, o psicanalista é testemunha do que pode traumatizar os sujeitos. Uma testemunha, no entanto, não é apenas um expectador, é também quem pode dizer algo sobre o que viu e ouviu. Os psicanalistas, no entanto, também testemunham o mal-estar na civilização para além dos seus consultórios. Assim, o que eles têm a dizer sobre os homens que batem e matam as mulheres? Nessa passagem do trauma singular ao social, a plenária do Eixo II da Jornada lançou questões que apontam para uma leitura da violência contra as mulheres para além do gozo. Abordando algo do social, Marcus André Vieira nos lembrou em sua conferência que nosso mundo é atravessado pelas relações de poder e dinheiro.
Em que a psicanálise pode contribuir para compreender e – para ter um pouco de esperança – diminuir os números de feminicídios no Brasil? Nosso país ocupa o 5º lugar no mundo em número de feminicídios, desse fato, faço a seguinte questão: que outra comunidade de psicanalistas, senão a brasileira, poderia ter algo a dizer sobre o feminicídio no nosso país?
Há gozo, e isso orienta nossa prática clínica, nossa teoria, nossas discussões. Mas aberta a porta do nosso consultório, há o mundo. E nesse mundo, há homens arrastando mulheres presas aos seus carros, há homens descarregando revólveres em suas ex-companheiras, há homens ateando fogo nas esposas e nos filhos.
O que nós, psicanalistas, temos a dizer sobre isso?
