Rumo ao XV Congresso da AMP: “Não há relação sexual” – Conversação sobre o Scilicet
Maria José Gontijo (EBP/AMP)
No dia 02 de dezembro de 2025, aconteceu a Conversação sobre o Scilicet Não há relação sexual a partir dos verbetes construídos pelos membros da EBP/AMP. Esses textos foram produtos dos cartéis que trabalharam em torno dos aforismas que tocam o tema do Congresso. Na sequência, vocês encontram o comentário sobre os verbetes de três colegas brasileiros que contribuíram para essa publicação.
“Sintoma, sinthoma”, Júlia Solano
O verbete de Júlia Solano, intitulado “Sintoma, sinthoma” faz parte do cartel XVIII que trabalhou a frase “Uma mulher é um sinthoma para todo homem”, do Seminário 23 de Lacan. O título proposto por Júlia já nos indica a direção do seu verbete: ela relaciona a frase mencionada acima “Uma mulher é um sinthoma para todo homem´ com a frase presente no Seminário 22 de Lacan “uma mulher é um sintoma”.
Inicialmente, Júlia comenta a frase do Seminário 22, abordando de que ordem é este sintoma do qual uma mulher é. De acordo com ela, Lacan concebe a mulher sintoma para destacar a vertente de gozo presente nessa dimensão sintomática. Portanto, o encontro com o real do gozo presente no sintoma é o encontro com a não relação. Nessa abertura à não relação, reside a possibilidade de tomar uma mulher como causa de desejo. Júlia compara a procura por uma análise com esse encontro: na análise, o sintoma pode levar ao amor ao inconsciente, uma mulher como sintoma pode convocar o amor. Logo, na abertura do encontro com a não relação, o amor se introduz. Nos dizeres de Júlia, um sintoma, seja uma mulher ou na análise, convoca a ser escutado. Dessa forma, uma mulher como sintoma quer dizer que o amor não é possível sem a fala.
O sinthoma é o que permite reparar o lapso na cadeia borromeana, enodando o real, o simbólico e o imaginário. A frase do aforisma lacaniano afirma que uma mulher é um sinthoma para todo homem. Júlia enfatiza que isso se coloca do lado do homem. Para uma mulher, será diferente, como veremos no verbete seguinte, de autoria de Andrea Reis.
O título do verbete de Júlia Solano – “Sintoma, sinthoma” – mantém as duas grafias, o que nos leva a considerar que uma não substitui a outra. Ser sintoma é o modo como cada um pode se deparar com o encontro com uma mulher. Se ele abre para a fala e o amor está em um bom caminho.
Júlia termina o verbete destacando um paradoxo: o sinthoma é o suporte da não relação sexual, pois faz existir a não equivalência. Pois Lacan afirma que uma mulher é sinthoma para todo homem. Mas ele acrescenta: deve-se encontrar outro nome para o que o homem é para a mulher. Júlia encerra o seu texto perguntando sobre essa não equivalência; sua questão é desdobrada no verbete de Andrea Reis, que veremos na sequência.
“Devastação e acontecimento de corpo”, Andrea Reis
O verbete de Andrea Reis, “Devastação e acontecimento de corpo”, faz parte do cartel XIX “O homem é para uma mulher uma devastação”, frase de Lacan que sucede a anterior “Uma mulher é um sinthoma para todo homem”, ambas do Seminário 23.
Andrea inicia seu verbete comentando a tradução do significante francês ravage – “devastação” – que remete ao arrebatamento e ao êxtase. Trata-se de destacar, com esse termo, a devastação, a forma erotômana do amor na mulher.
Andrea observa que Freud interpretou a sexualidade feminina a partir do falo, do Édipo e da inveja do pênis. Lacan partiu da relação do sujeito com a falta-a-ser na relação ao desejo mas, ao abordar o falasser, incluiu o gozo no corpo. Andrea assinala que, quando o corpo entra em cena, diferentes formas de gozo se apresentam, no homem e na mulher.
Assim, cada um se arranja de maneira distinta com o sofrimento que acomete o corpo e é isso que rompe com a equivalência. Uma mulher é sinthoma para um homem; um homem é para uma mulher uma devastação. Portanto, sinthoma e devastação são formas distintas de suplência da não relação, no homem e na mulher.
Com Andrea explicita, “homem”, “mulher” são aqui tomados como sujeitos mais à esquerda ou à direita da fórmula da sexuação. Do lado esquerdo, homem: modo de sofrimento mais localizado que afirma o universal da castração e da lógica fálica. Do lado direito, mulher: a devastação como efeito traumático do gozo sem medida, um sofrimento sem limites que arrebata o corpo, a dor deslocalizada.
Andrea faz referência a um artigo de Marie-Hélène Brousse para abordar o efeito da convocação do sujeito por um Outro que possa assegurar seu próprio corpo. Como o Outro – a mãe ou o homem – não responde desse lugar, a devastação retorna sobre o sujeito feminino. Portanto, o lado limitado do gozo fálico e o lado ilimitado da devastação atribui ao corpo lugares distintos. O gozo fálico encontra-se separado do corpo, pois sua relação com o corpo é de parasita. A devastação é o gozo que se experimenta no corpo como arrebatamento.
No início, destaquei que a devastação apresenta a forma erotômana do amor numa mulher. Numa análise, nos diz Miller, o falasser feminino tem que resolver a questão do amor. Por um lado, não há como se liberar da norma fálica, por outro, deve-se abrir para a feminilidade, para o não todo. Então, encontrar uma solução para a feminilidade seria uma possibilidade de ultrapassar a devastação, a dimensão erotomaníaca do amor.
“O que convém ao que não existe”, Flávia Cêra
Flávia Cêra constrói seu verbete para o cartel XXI “A noção de conjunto vazio é o que convém à relação sexual”, frase de Lacan extraída do Seminário 25, “Momento de concluir”. Nesse verbete, como afirma Flávia, podemos antever uma espécie de sociologia lacaniana.
O título proposto, “O que convém ao que não existe”, traz um aparente paradoxo, de acordo com a autora: o que convém à relação sexual que não existe? Ela observa que o aforisma da inexistência da relação sexual estende-se no Seminário 24 e no 25, assinalando que se trata de uma frase que nos permite abordar as consequências tanto clínicas como políticas nos trumains. Flávia faz referência ao neologismo francês que contrai trou, “buraco”, traumatisme, “trauma”, e humain, “humano”. Miller destaca em seu curso O ultimíssimo Lacan a proposta de tomar o toro como o novo visual – o homem como oco e traumatizado. Nos trumains, encontramos as marcas do choque da língua no corpo, introduzindo o transtorno do gozo. Como acentua Flávia, com a primazia do gozo, a relação com o Outro deixa de ser estrutural: o gozo é do Um.
O laço possível nos trumains não se dá pelo gozo fálico, esse que busca preencher o buraco; mas, por uma forma de enlaçar que toca na inexistência da relação sexual. Em decorrência disso, temos a frase: “o conjunto vazio é o que convém à relação sexual”. Ele convém, não para fazê-la existir, mas para um enlaçamento entre corpo e língua, entre o Um e o Outro, quer dizer que o conjunto vazio marca a presença da ausência. Trata-se de uma operação que se depara em uma análise. Por isso, Flávia toma como exemplo o passe de Ram Mandil. Esse passe nos ensina como o corpo, um conjunto vazio, um saco, um oco que o sujeito buscava preencher, sofre uma mutação com a interpretação analítica, permitindo outra relação com o vazio. Tal operação vivifica o corpo, pois permite fazer laço com o que era segregado.
Com o conjunto vazio, e na experiência analítica, a relação sexual que não existe dá lugar a um tipo um laço que marca o corpo do trumain, assinala Flávia. Dessa forma, os efeitos do acontecimento de corpo podem ser acolhidos, para além do Um que reitera solitariamente ou da identificação que faz dois.
