Ressonâncias das Noites de Biblioteca da EBP-MG: A experiência da psicanálise
Francisco Matheus Machado de Barros
“O que conta, quando se tenta elaborar uma experiência, não é tanto o que se compreende quanto o que não se compreende”[1].
Nas Noites da Biblioteca da Seção Minas Gerais[2] deste ano, abordamos o tema “A experiência da psicanálise”. Fernanda Costa, diretora de Biblioteca da seção[3], propôs essa investigação orientando-se pela concepção de Judith Miller sobre a FIBOL[4]. Segundo esta, a Biblioteca de Orientação Lacaniana se caracteriza por ser uma das referências no Campo Freudiano para a dobradiça entre a psicanálise em intenção e a sua extensão. Sendo que a prática analítica seria o centro dessa dobradiça.
Para abordarmos esse recorte, escolhemos o capítulo “A tópica do imaginário” do Seminário 1 de Lacan. Neste, o caso Dick de Melanie Klein, é discutido a partir de um experimento da física: o buquê invertido. Quais seriam as aproximações e diferenças entre as experiências analítica e as do campo científico? Como poderíamos pensar a especificidade da nossa práxis?
Foram três encontros dedicados a estas perguntas. No primeiro, estiveram presentes Patrícia Kauak[5] e Antônio Teixeira[6]. Kauak situou o contexto científico da época do Seminário 1 e a originalidade de Freud ao subvertê-lo quando supôs que havia um sentido inconsciente a ser lido nos sonhos. Diferenciou, assim, a psicanálise da corrente científica positivista que visava uma unidade em seu discurso. Por sua vez, Teixeira mostrou como a ênfase dada por Lacan ao simbólico em 1953, reposicionou o imaginário no contexto da psicanálise de sua época. Pois, se por um lado, o esquema óptico nos demonstra como a ilusão de unidade se forma no espelho, por outro, destaca-se que ela é sempre fragmentada, borrada. Ou seja, Lacan sublinha a hiância entre o simbólico e o imaginário. Teixeira elucida: “o que pela imaginação se [o analista] busca não é ver melhor o que se enxerga, mas, sim, tomar distância do lugar que normalmente parte nossa observação e que, na verdade, o impedia de ver”.
Essa contribuição foi ressaltada por Cristina Drummond[7] e Mônica Campos na segunda Noite, cuja ênfase foi no caso Dick. Ambas comentaram a maneira singular de Lacan ler Freud e a consideração que ele fez sobre pós-freudianos, ao levar em conta as suas observações clínicas, ao mesmo tempo que indicou os seus equívocos. Para Lacan, se houve efeito para Dick do tratamento com Melanie Klein, não foi em razão da maneira que ela enxertou a sua interpretação, mas por ter introduzido uma verbalização, uma “pequena célula palpitante de simbolismo”[8]. Drummond observou que para Klein o simbólico é imaginarizado, já que ela não toma distância do lugar que normalmente parte a nossa observação. Ou seja, para esta não há hiância entre o simbólico e o imaginário.
Na terceira e última Noite, apresentei as ressonâncias dos encontros anteriores, com os comentários de Lucíola Macêdo[9]. Decantou-se para mim, que no Estádio do Espelho a ilusão da unidade produzida se faz “por aproximações e por truques [truc]”[10]. Significante que me levou até o Lacan de 1979[11], que se perguntou como era possível pessoas se curarem pela operação significante. Ele respondeu que não sabia, mas que era uma questão de truque [truquage][12]. De acordo com o dicionário Le Robert – micro, Truc é uma ação que requer habilidade. O truque de um prestidigitador. Enquanto truquage é o ato de falsificar, adulterar. Processo utilizado no cinema para produzir uma ilusão na imagem.
Poderíamos marcar uma diferença entre o truc de 1953 e o truquage de 1979? Para Brousse[13], a ilusão produzida pela linguagem, o laço entre a experiência orgânica e a imagem do corpo tem a ver com as zonas erógenas, são as experiências de gozo que grampeiam a imagem e o organismo. Parece que ela nos ajuda a ler o truque de uma outra maneira, que aponta em direção aos orifícios corporais, ao real pulsional. Se com o truc estamos no registro da ilusão, da unidade (um truque de mágica), com o truquage, uma ilusão que adultera, daríamos um passo a mais para pensar as consequências reais da imagem? Apesar dessa distinção, não poderíamos indicar o gérmen dessa formulação no Seminário 1, no qual Lacan elaborou a experiência a partir da não compreensão?
