O fazer da língua materna
Olívia Loureiro Viana
em breve a língua será a mãe
mais do que você é a mãe
Ana Martins Marques
Em seu testemunho de passe, Carolina Koretzky relata que viveu anos respondendo a um sintoma de errância, uma agitação que não a permitia parar em um lugar. Recolhendo os efeitos de uma análise entre dois idiomas, ela fala da língua de cada falasser: “Essa língua que nos exila e mortifica e que, ao mesmo tempo, nos faz palpitar.” (Koretzky, 2025, p.118). O corpo falante é um corpo marcado pelos sulcos de lalíngua, pela maneira como a língua pode tocar cada sujeito, exilando-o e o trazendo para casa.
Mas quando, afinal, estamos em casa? Essa é a pergunta levantada por Barbara Cassin (2024) no subtítulo de seu livro A nostalgia. Percorrendo os caminhos de Ulisses, Eneias, Hannah Arendt e os seus próprios, ela interroga a relação entre nostalgia, pátria, exílio e língua materna. Cada uma das referências evocadas por ela permite tecer uma resposta diferente a essa pergunta. Em sua própria experiência, está em casa não no lugar onde nasceu, mas onde seu marido morreu. Com Ulisses, sabemos que estamos em casa quando somos reconhecidos; com Eneias, quando encontramos uma nova origem; com Arendt, quando permanecemos com a língua materna.
Hannah Arendt se exila nos Estados Unidos após ter fugido da Alemanha em 1933. Arendt afirma que, o que resta para ela da experiência europeia, é a língua – ela faz questão de manter o alemão e fazer resistência ao uso do inglês e do francês, cultivando seu sotaque. A experiência do nazismo faz com que ela já não tenha nenhum tipo de nostalgia de seu território de origem. O exílio “desnaturaliza a língua materna” (p.67) e a língua, e não mais a terra, e não mais o povo, torna-se sua pátria.
Seguindo com Arendt, Cassin investiga o que torna uma língua materna. Uma primeira resposta que ela encontra é que a língua materna seria aquela que resguarda a possibilidade de inventar: “a poesia, esse fazer (d’)a língua, é conatural à língua materna” (p.74). Entretanto, é também possível falar o clichê, o banal, em sua própria língua. Cassin propõe: “Se a invenção é realmente algo próprio, equivalente a ‘materno’, será preciso concluir, logicamente, que a língua não é mais ‘materna’quando nela não inventamos mais […] A língua alemã ainda será materna para os exilados, mas ela não o será mais para os nazistas cotidianos…” (p.75).
Sabemos, com nossa prática clínica, a importância da escuta e do ato do analista justamente para escutar a língua materna, os significantes chave de um sujeito, para que ele saia da homogeneidade da língua clichê. O texto de Cassin nos permite pensar as implicações políticas dessa orientação que visa escutar e fisgar lalíngua.
Podemos compreender que a língua materna é aquela que nos permite inventar, uma vez que ela mesma nos inventa, nos determina, em um “banho sonoro de significante e de vida” (p.77), se inscrevendo, para cada um, de maneira singular, traumática. Em O Aturdito, Lacan afirma: “Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela” (Lacan, 2003, p. 492). Compreender a língua materna como cerne da possibilidade de invenção nos aponta, portanto, as possibilidades de se virar aí [savoir-y-faire], com esses equívocos e com a forma como eles tocam o corpo falante.
Entretanto, Cassin tece ressalvas a essa afirmação, lembrando que há muitas formas de se criar em línguas com as quais temos intimidades diversas. Os sonhos em línguas estrangeiras seriam um dos exemplos dessas possibilidades criações. Além disso, a tradução seria exatamente um inventar “entre-duas-línguas” (p.87), o que alguns testemunhos de passe, como o de Koretzky, acima citado, ensinam tão bem – dar a mão, ajudar, pode ser também dar um golpe, um soco. No trânsito entre línguas, a análise abre vias de uma possibilidade de fazer algo novo com isso.
Quando, afinal, estamos em casa? Afinada à psicanálise, Barbara Cassin responde: “não estamos jamais ali, em casa” (p.96). Mas talvez possamos nos-virar-aí, por aí, inventando com a língua, com os sulcos que lalíngua inscreve em cada um.
