O amor, ainda
Cristiana Chacon Gallo (EBP/AMP)
Jogos do amor – Parcerias contemporâneas foi o tema escolhido para a renovação de uma aposta de trabalho lançada pela Diretoria e Conselho da Seção São Paulo da EBP, revisitando nossos termos e conceitos à luz da atualidade de nossas clínicas, além da arte que se fez continuamente presente e destacou-se em um momento privilegiado de conversa com quem a produz.
Foram dois dias de trabalho intenso nestas XIII Jornadas, em que o termo aposta destacou-se, com o voto de um bom encontro, mas igualmente ressaltando o que disto está efetivamente em jogo nas parcerias amorosas.
De início, a referência de nossa convidada Raquel Cors Ulloa a Jacques-Alain Miller em Uma fantasia[1], já estabeleceu uma articulação entre as Jornadas e as questões que o nosso próximo Congresso suscita: o amor apresentando-se como questão, mas também como meio ou mediação entre os Um-sozinho.
Desde aí, fomos lançados a uma dimensão que, longe de ser banal ou corriqueira sobre as coisas do amor, diz respeito ao “milagre”[2], quando acontece. Encontro que pode ser desejado, mas nunca sabido ou programável.
Nossas Jornadas se interessaram pelas condições de amor e semblantes atuais, não sem falar do amor nas análises, considerando a transferência até o seu termo final em que se apresenta uma experiência inédita em relação ao amor[3]. Algo que a plenária sobre O que acontece com o amor em uma análise, com a presença de Ondina Machado (AE), pode nos transmitir ao falar sobre a localização de um gozo sem sentido.
Não há relação sexual: nada que se programe ou se saiba antecipadamente, mas a clínica repetidamente nos apresentou o esforço da programação ou as defesas contra o real em jogo nas relações amorosas, restando desencontro ou algo que não sabemos poder chamar de amor.
Contudo, em meio aos dramas ou ficções amorosas, em vários casos se pode falar, a partir da presença do analista, em abertura para algo novo que tocava amor e gozo, a partir do sintoma em questão.
Ao tratarmos de algo tão enigmático como a mediação dos Um-sozinho, a arte nos apresentou a “poética da coesão” como direção para um fazer artístico.
Esmir Filho testemunhou tal poética na construção dos seus filmes, indicando se servir de um elemento que está sempre ali, presente, em todas as cenas, estabelecendo coesão ao que, sem isto, toda a produção se dispersaria.
O amor estabelece mediação, trabalha contra a dispersão e o nada querer saber sobre o que estabelece o encontro.
Os laços e a transferência de trabalho, também se expressaram na realização das Jornadas, permitindo a renovação das apostas, a cada vez.
Como finalizou Miller, em sua entrevista, “os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal-entendidos onde a saída não existe.”
Mas, queremos sair?
O final de uma Jornada encerra um tempo de trabalho, mas promove uma nova abertura, com o voto de seguir querendo saber sobre os laços de trabalho que nos une e produz encontros.
